1 de out de 2015

Dia 144: Segunda Chance (31 de julho)

Eu simplesmente adoro Depois do Casamento (After the Wedding e Em um mundo melhor (In a Better World), filmes dirigidos por Susanne Bier. Assim, eu tento acompanhar sua carreira por conta o que considero duas obras primas, mas não tem sido fácil. 

Segunda Chance (En Chance Til) foi um filme bastante confusão para mim. Sua temática e atuações são bastante relevantes, mas um problema se apresentou pelo argumento central da história: alguém seria de fato capaz de agir daquela forma, em um momento de desespero? Rodrigo e eu questionamos essa premissa básica desde o início, criticando os personagens e os rumos que a história tomou ao longo do filme. Para dizer o mínimo, nós ficamos bastante bravos, na verdade. Eu entendo como um autor pode perder a mão ao escrever uma história, assumindo um tom professoral e perdendo parte da intuição ao longo de uma brilhante carreira. Trata-se, no entanto, de algo muito triste de se presenciar. 

Ainda assim, ao longo dessa co-produção de 2014 da Dinamarca e Suécia, nós conseguimos deixar um pouco de lado esse questionamento central a fim de nos focarmos no que estava sendo de fato debatido ali, e muito é discutido nesse filme. A cola que unia todas as questões apresentadas é o quão humanas todas elas são. Dessa forma, decidimos largar de mão o argumento sem sentido para nos concentrarmos no que estava sendo dito por detrás daquela situação absurda. 

Eu me lembrei do livro de Lionel Shriver, Precisamos Falar sobre Kevin, para mim uma leitura obrigatória (O filme não conseguiu alcançar a profunda e complexa dimensão do livro, eu acho). A busca  por uma vida perfeita, uma família perfeita: a luta insana por alcançar esse ideal ilusório pode superar necessidades mais fundamentais e prementes, como a percepção do que realmente acontece dentro de nós ou no ambiente familiar. Essa busca pode nos cegar completamente. Não olhar para a situação com olhos bem abertos pode acarretar eventos trágicos, como vemos na história apresentada por Shriver e no filme de Bier. Fazer de conta que tudo está bem, especialmente quando que está visível aos olhos parece maravilhoso, tem seu lado criminoso, com consequências terríveis.  

Uma das lições aqui é: olhar para a situação real que vivemos pode ser doloroso, mas fingir que está tudo bem pode ser ainda mais prejudicial, trágico até.  

Outro aspecto: agir em desespero é também garantia de tragédia. Não podemos resolver as dores de outrem - podemos ajudar, mas não resolvê-las por aqueles que amamos. Tentar resolver a situação de outrem é humano, claro, mas pode ser uma estupidez também. Nesse filme, Andreas, interpretado por Nikolaj Coster-Waldau, é estúpido por excelência e de forma magistral (eu disse que nós estávamos com raiva...). Aos poucos, no entanto, somos capazes de entender suas razoes, mas sem nunca cessar de questioná-las. O que ele faz é extremo e horrível, com terríveis consequências para ele e os outros envolvidos, e o fato de que ele age daquela forma sob falsos pretextos (mesmo sem o saber) é ainda pior. 

Ao ler este post, eu me sinto bastante prepotente, julgando ferozmente as ações de outrem, algo que eu tento evitar com bastante atenção - se Andreas houvesse sido um pouco menos preconceituoso, por exemplo, talvez ele houvesse agido diferentemente. Não me leve a mal, eu entendo as razões dele perfeitamente. mas, como eu disse antes, a premissa em si dessa história é absurda, facilitando os julgamentos a respeito. Essa atitude perante o filme se torna ainda mais fácil quando percebemos o que Susanne Bier defende em sua história - ao final, fica claro que ela partilha de algumas das ideias mais preconceituosas de Andreas, mesmo que ela tenha apresentado também a imensa bagunça que essa percepção pode causar. 

Nossas fortes reações ao filme são uma reflexo de como ele é relevante e enganador ao mesmo tempo. Não conseguíamos parar de falar a respeito do que víamos à nossa frente, sem acreditar no absurdo. Ao final, no entanto, eu penso que nós fomos ficamos menos furiosos, mais sensíveis à busca de Andreas. Ao menos até a terrivelmente cafona última cena, uma tentativa desastrosa de transmitir uma lição redentora. Um desperdício absoluto, quando nós finalmente estávamos conseguindo compreender essa trágica história humana.  

http://onemovieadaywithamelie.blogspot.com.br/2015/08/day-144-second-chance-july-31.html


Segunda Chance (En Chance Till). Dirigido por Susanne Bier. Com: Nicolaj 
Coster-Waldau, Urish Thomsem (o mesmo de Adams Aebler)Maria Bonnevie.
Dinamarc/Suécia, 2014, 102 min., Color (DVD).


PS: Fragmentos: A Seleção (Admission, 2013); Penny Dreadful, temporada 2, episódio 6, e alguns outros que eu não consigo lembrar agora... muita televisão e pouca memória :)

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