21 de jul de 2015

Dia 110: A Menina dos Campos de Arroz (27 de junho)


Interessante em A Menina dos Campos de Arroz (La Rizière), uma produção franco-chinesa, foi o sentimento de que eu era uma mosca que, sem ser percebida, observava a vida dos habitantes de uma pequena vila rural no sul da China. Um dia, eu lá cheguei... um ano depois, eu fui embora. O que testemunhei não tinha início nem fim. 

O foco dessa observação é A Qiu, uma garota que sonha com uma educação melhor e uma vida para além dos campos de arroz do seu povoado Dong - o filme todo é falado em Dong, não em mandarim, conferindo uma sensação ainda maior de isolamento. Longe de qualquer elemento moderno, ela vive uma rotina puxada com um sorriso doce no rosto. Nós nos sentimos de tal forma em outro tempo que se torna até surreal - e muito belo. Mas é uma vida bastante dura. 

Qiu não é rebelde, mas ela deseja outra vida, uma diferente da que tem. Ela sonha em escrever, e por essa razão talvez ela mesma seja a narradora da sua história, contando sobre sua vida com os avós, com seus pais, o irmão e uma amiga. Pela sua percepção das coisas, podemos conhecer o conflito entre permanecer na vila em que nasceu ou procurar um emprego na cidade, o que se torna mais claro pelas escolhas dos pais de Qiu - sempre através do seu olhar e narrativa tranquila. E ela faz um bom trabalho. É lindo quando ela descreve como se sente ao escrever: como se suas mãos tivessem vida própria. 

Dessa forma, eu me considero com sorte por conhecer sua história, mesmo que por um curto período de tempo e ainda que não possa saber muito além do que ela me contou. Esse é um aspecto difícil no filme. A lição aqui é que a vida é difícil, o dia seguinte é incerto, que precisamos trabalhar muito para conquistar o que desejamos, e normalmente as coisas fogem do nosso controle. Há imprevistos demais na vida, a qual se torna um jogo de superação e seguir em frente. Em resumo, vemos tristeza, trabalho duro, esperança e conquistas e perdas. É só uma questão de saber como lidar com cada uma delas com um coração honesto.

http://onemovieadaywithamelie.blogspot.com.br/2015/06/day-110-rice-paddy-june-27.html


The Rice Paddy (La Rizière). Dirigido por Xiaoling Zhu. Com: Xiang
Chuifen, Shi Guangjin, Wu Shenming.  Roteiro: Simon Pradinas, Xiaoling
Zhu.  França/China,  2010, DTS, Color (Cinema).

Dia 109: Minions + O Exterminador do Futuro: A Salvação (26 de junho)

Tó, para tu!
Torpedo!!!!

Claro que eu estava lá para ver Minions com meus dois amados sobrinhos. Cadeiras que mexem, tela gigante, imagens em 3D... com o adicional de risadas felizes, pipoca e muito refrigerante.  

Em resumo, foi muito divertido. 

E o filme? Não vamos esquecer dele... Para mim, já o início, com o logo da Universal, valeu o ingresso. Os primeiros minutos são ótimos também, com a jornada dos Mínions pela história. Nós rimos demais. No entanto, chegou a hora da história principal, quando o filme então se tornou um pouco entediante (mas não infame, porque aqueles caras amarelos são sempre muito legais), para ressurgir ao final, quando se torna mais emocional e querido. As musicas dos anos 60 são geniais, e eu me pequei cantando baixinho (eu juro), especialmente com The Doors e The Kinks :)

Uma das melhores partes no filme surgiu na tela com o cinema quase vazio, a equipe de limpeza esperando para entrar na sala, meus dois queridos dançando embaixo da tela, numa cena musical divertida após os créditos finais. Se possível, não tenha pressa, permaneça na sua poltrona ou saia dançando pelo cinema (você estará lá sozinho de qualquer forma), e aproveite a experiência com os Minions. Porque é disso que se trata, mas do que um filme na verdade. 

Banana!

Minions. Dirigido por Kyle Balda, Pierre Coffin. Com: Pierre Coffin, Sandra
Bullock, John Hamm
(versão original). Roteiro: Brian Lynch. EUA,  2015, 91 min., 
Datasat/SDDS/Dolby Digital/Dolby Atmos, Color, Animação (Cinema).

PS: Meus Minions <3



À noite, depois de muita diversão, eu me acomodei no sofá para assistir ao último filme da série Exterminador - ao menos até a semana que vem, quando estreia o quinto filme. A minha principal memória dessa produção foi a atmosfera dark, além de se tratar da primeira vez que vi Sam Worthington nas telas.  

Eu não vejo nenhum grande problema em O Exterminador do Futuro (Terminator Salvation) além das grandes expectativas a respeito, por ser um filme da franquia do Exterminador. Ele é mais obscuro, próximo do apocalipse imaginado por George Miller e que inspirou James Cameron no primeiro filme. As cenas de ação são boas, a história faz sentido, e finalmente nós somos colocados no mundo após o Dia do Julgamento. 

O surto de Christian Bale durante a produção colocou uma mancha na sua atuação, mas ele é um  John Connor bastante convincente.

Os eventos seguem o que apresentado no terceiro filme, mas numa produção mais competente, sem dúvida. Ele se encontra um pouco afastado dos dois primeiros, ainda, mas eu gostei da sua atmosfera mais intensa. Há alguma cafonice, claro, era esperado. No entanto, eu sempre me disponho a discussões sobre o que nos caracteriza como humanos, e este, apesar de óbvio, traz um debate importante sobre tolerância e diferenças. É uma conquista importante, especialmente neste 26 de junho de 2015, em que a Suprema Corte dos Estados Unidos legalizou o casamento gay em todo o seu território. 


O Exterminador do Futuro: A Salvação (Terminator Salvation). Dirigido
por  McG. Com: Sam Worthington, Christian Bale, Brice Dallas. Roteiro:
 John Brancato, Michael Ferris. EUa/Alemanha/Inglaterra/Itália, 2009,
 SDDS/Dolby Digital/DTS, Color (DVD).

PS: All we need is love <3 Amor conduz a tolerância e respeito, não a preconceitos... 



PPS: Eu pensei em postar o áudio com o surto de Bale, mas é  triste, mesmo que ele tenha razão. E não acho necessário insistir nisso, sempre lembrando que todos temos um mal dia às vezes. Um dia horrível, na verdade, que gostaríamos de apagar da nossa história. 





Dia 108: O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final + O Exterminador do Futuro 3: A Rebelião das Máquinas (25 de junho)

Considero uma boa decisão assistir aos três primeiros filmes da séria Terminator em um curto espaço de tempo. Dessa forma, foi possível identificar muitos detalhes, referências, curiosidades que de outra forma passariam despercebidos. Eu geralmente não conheço todas as referências que costumam ser cultuadas, e com a decisão de ver os filmes em dias seguidos eu pude identificar questões nos três filmes que fazem parte da presença dessa série no cinema por mais de 30 anos. 

Outro pensamento: também foi possível, assim, identificar o quanto o terceiro filme deixa a desejar em relação aos dois primeiros (mesmo que não seja ruim em si). 

O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final (Terminator 2: Judgment Day), produzido sete anos após o primeiro filme, foi uma sequência bastante esperada, que conseguiu não desapontar os fãs em nenhum aspecto. Algumas das questões lançadas pelo filme inicial são abordadas, a ação é de fato excelente, Schwarzenegger não era mais somente um cara estranho e super musculoso, e as tecnologias de computação gráfica permitiram cenas ousadas e um exterminador mais assustador.  Ele é bacana, engraçado, melancólico e uma sequência digna do original. 

A história da produção é longa e interessante também, como no primeiro filme, e vale conferir o trivia a respeito.  

Eu fiquei surpresa com algumas cenas de que não lembrava, apenas para descobrir, nos créditos finais, que eu estava assistindo a uma versão remasterizada e estendida. A participação de Kyle Reese, ausente da versão dos cinemas, foi um bónus perfeito. Eu não podia acreditar que havia esquecido dessa cena, até que entendi que não a havia visto. Agradeço por não estar tão velha assim :) 

O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final (Terminator 2 Judgment Day).
Dirigido por James Cameron. Com: Arnold Schwarzenegger, Linda Hamilton, 
Edward Furlong. Roteiro: James Cameron, William Wisher Jr. EUA/França,
1991, 153 min. (versão estendida), Dolby RS (E outras tantas tecnologias que, 
listadas, constituem um livro por si só). Color (DVD). 


PS: Crazy credits em Exterminador do Futuro 2. Nintendo eu entendo, mas "now read the bantam book?" Ininteligível para mim.



Outra surpresa nos créditos finais foi a presença de uma música fora do score original, algo nada usual à época. Trata-se de  You Could Be Mine, do Guns N' Roses. Eu fiquei curiosa para ler mais a respeito de trilhas sonoras nesse período, porque elas mudaram bastante sua configuração desde então.  



Ao final de Jurassic World, Mari, Gus e eu começamos a conversar sobre o novo filme do Exterminador do Futuro. Gus me perguntou em qual das três produções anteriores o exterminador era uma mulher. Eu não soube responder, não conseguia lembrar a respeito. Ao assistir a  O Exterminador do Futuro 3: A Rebelião das Máquinas (Terminator 3: Rise of The Machines), eu pude entender por quê. 

Por alguma razão que desconheço, eu não havia assistido a esse filme ainda - o que é estranho, considerando que eu sou fão da franquia Terminator. No entanto, ao final, eu compreendi melhor por que passei batido por esse filme: ele não tem nada a ver com as duas produções anteriores e tampouco com o que fez dessa série um grande sucesso - apesar de não ser um filme ruim em si. 

Podemos até fazer cara feia para James Cameron e seus gritos sobre ser o rei do mundo, mas sua ausência dessa produção foi sentida. Toda a atmosfera do filme é diferente, a produção é fraca, principalmente em comparação com o filme anterior (e estamos falando aqui de 12 anos de inovações tecnológicas no cinema). 

As piadas sobre o exterminador (às custas de Schwarzenegger , claro) caem no vazio aqui. São até mesmo bobas, na verdade. Até mesmo Clare Danes não fez muito sentido aqui. Como disse, o filme não é horrível, é um bom entretenimento até, principalmente se desvinculasse dos filmes anteriores. 

De acordo com as curiosidades sobre o Exterminador 2, a cena do bar teve algumas peculiaridades. A parte engraçada é que uma moça entrou no bar sem perceber que se tratava de uma filmagem. Diante de um Schwarzenegger quase nu, ela perguntou o que era aquilo. A resposta dele: noite das mulheres. Esse episódio provavelmente inspirou a cena em que o Exterminador procura por roupas no terceiro filme, uma das poucas piadas interessantes - e não por si mesma, mas por seu contexto em relação ao segundo filme. 

http://onemovieadaywithamelie.blogspot.com/2015/06/day-107-terminator-2-judgment-day.html

O Extreminador do Futuro 3: A Rebelião das Máquinas (Terminator 3: 
Rise of The Machines)Dirigido por Jonathan Mostow. Com: Arnold
Schwarzenegger, Clare Danes, Nick Stahl. Roteiro: Gale Anne Hurd
et al. a partir dos personagens criados por James Cameron. EUA/Alemanha/
Inglaterra, 2003, 109 min., DTS/Dolby Digital/SDDS, Color (DVD).


PS: Eu me referi, acima, a duas circunstâncias peculiares durante as filmagens da cena do bar, de acordo com o trivia do Exterminador do Futuro 2 no imdb.com. Uma foi a engraçada, a outra é realmente trágica: "No comentário de áudio, James Cameron conta que não apenas a cena do bar foi filmada do outro lado da rua onde a Polícia de Los Angeles espancaram Rodney King, mas afirmou que eles estavam filmando na mesma noite do espancamento". Tão perto e tão longe.  

PPS: Apresentando Sense8 para Mari, eu acabei por assistir aos quatro primeiros episódios de novo :)

19 de jul de 2015

Dia 107: O Exterminador do Futuro (24 de junho)

Eu assisti a O Exterminador do Futuro (Terminator) tantas vezes que perdi a conta. Mas não havia como recurar uma sessão do filme no cinema.

Durante a sessão desse dia, percebi como o filme estava impresso na minha memória e imaginário. Fiquei surpresa nessa sessão trinta anos após vê-lo pela primeira vez no cinema. Apesar de ser meu filme favorito na época, eu não sabia que ele ainda se encontrava tão vívido em mim. Desde a primeira fala "what the hell..." até outros muitos detalhes, como o momento de cabeça de Reese quando ele dá a volta no seu carro roubado, vi como muitos pequenos elementos estavam presentes em mim depois de tanto tempo. Tudo tão familiar e querido. Uma jornada pela memória num reencontro feliz.  

Um encontro que acabou por ser agridoce, na verdade. Um aviso de que, apesar de precioso para mim, talvez seja hoje de parar por aqui. A percepção ele é parte do meu imaginário foi legal, mas a história e seus personagens não foram tão tocantes dessa vez. Eu não me emocionei nem na sequência do título, que costumava me deixar com lágrimas (pensem). Melhor parar por aqui, antes que ele pare de fazer sentido de todo para mim. Não posso de forma alguma deixar que isso aconteça...

O filme foi um marco para mim aos 15 anos. Há filmes que, a partir de um orçamento limitado e de uma produção complicada, se tornaram um sucesso, sendo cultuados dpecadas após seu lançamento.  James Cameron se inspirou justamente em um deses filmes, Mad Max (outro sucesso revisado neste ano e apresentado aqui no dia 69dia 70 e dia 72). Então, eu não fui a única a ter uma leve obsessão por ele. Se O Exterminador do Futuro estivesse num cinema da cidade, lá estava eu também. No meu caro, houve alguns obstáculos a superar aos 15 anos, mas meus amigos e eu sempre encontramos uma forma de chegar ao cinema. Mesmo que ele se situasse numa parte meio suspeita da cidade à noite, esperando a mãe da minha amiga nos buscar depois de arrancar os still e poster da vitrine do cinema... Foi uma fixaçao repleta de aventuras, ao menos. 

A quinta parte da franquia Terminator esta para estrear, e essa sessão de quarta-feira foi bem planejada, e não apenas por razões comerciais. É interessante pensar que algumas coisas que consideramos normais hoje numa produção cinematográfica tiveram um começo incerto e complicado. O trivia no imdb.com a respeito do primeiro Exterminador do Futuro é uma boa história por si só. Uma dessas curiosidades conta como James Cameron escreveu Aliens (1986) no seu carro enquanto esperava que Arnold Schwarzenegger estivesse disponível para começar as filmagens desse primeiro filme do que que tem sido uma bem sucedida e duradoura franquia, com sua história e personagens ainda atuais. 

http://onemovieadaywithamelie.blogspot.com/2015/06/day-107-terminator-june-24.html

O Exterminador do Futuro (Terminator)Dirigido por James Cameron.
Com: Arnold Schwarzenegger, Linda Hamilton, Michael Biehn. Roteiro:
 James Cameron, Gale Anne Hurd.  Inglaterra/EUA, 1984, 107 min., Mono (original 
release)/Dolby  (DVDr.e-release)/DTS (DTS HD Master Audio), Color (Cinema).

PS: Outro filme de que eu gostava (e ainda gosto) quando mais jovem, alguns anos após Teminator, era A Noite Americana (La Nuit Américaine, 1970), de François Truffaut. No sonho do diretor, durante o filme, eu me vi há 30 anos, naquela noite no cinema obscura numa das piores partes da cidade :)








Dia 106: Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros (23 de junho)

Que chatice. 

O filme? Não. Eu. Oficialmente eu me declaro uma chata absoluta. Talvez seja a escrita e reflexão constante sobre os filmes - um amigo me disse uma vez chegaria um momento em que eu não seria mais capaz de simplesmente me divertir no cinema com um filme. Eu discordei de início, mas agora estou começando a pensar que talvez essa seja uma possibilidade. 

E não estou muito feliz com esse prospecto. 

Hoje,  me vi odiando Jurassic World no espaço de duas horas da sessão. Incomodou-me como os personagens são estereotipados ao exagero, bobos mesmo, e o quanto o filme poderia ter sido tão melhor. Eu reclamei alto em muitas cenas, torcendo para os personagens morrerem uma morte horrível por meio de um dos dinossauros, e cheguei ao fim do filme bastante aliviada. Claro, os dinossauros são incríveis, tão reais. Espetaculares de fato. Chris Pratt não está mal também (mas não tanto quanto em Guardiões da Galáxia). O mais importante, no entanto, é que eu não consegui me importar com a história ou os personagens, o que para mim é uma sentença de morte para uma narrativa de ficção.  

Não, mentira. Eu me importei com algumas coisas. Todas as referências a s to Jurassic Park foram divertidas e inteligentes, desde a primeira com a camiseta de Jake Johnson até outras partes que apresentaram algo do filme de 1993. 

Como eu disse antes, uma chatice.  

Mas o pior de tudo foi a personagem de Bryce Dallas. Cafona, mal escrita, e vítima de uma má atuação. E se num filme com dinossauros eu presto mais atenção ao cabelo de Dallas que à incrível recriação desses animais extintos, temos um grave problema aqui. Se é só comigo eu não sei. Mas foi o que senti mais intensamente nesse filme, infelizmente. 

Mari e Gus, desculpem-me por ser tão má companhia. Prometo que eu me comportarei melhor da próxima vez :)
Jurassic World. Dirigido por Colin Trevorrow. Com: Chris Pratt, Bryce
Dallas Howard, Jake Johnson, Omar Sy. Roteiro: Rick Jaffa et al. a partir
dos personagens criados por Michael Crichton. EUA/China 
(Eu deveria saber...),
2015,  124 min., Dolby Digital/Datasat/Dolby Surround 7.1, Color (Cinema).




18 de jul de 2015

Dia 105: Rocco e seus Irmãos (22 de junho)

Perfeição. 

Se assim eu encerrasse este post, eu já teria dito o suficiente sobre Rocco e seus Irmãos (Rocco e i Suoi Fratelli), considerado a obra prima de Luchino Visconti e seu primeiro sucesso comercial. Eu já havia ouvido bastante sobre como o filme é excelente, mas eu não estava preparada para tanto. Teria sido incrível assistir a ele na tela grande do cinema, local a que esse fime pertence. 

A hístória possui tantas diferentes camadas, é impossível apontar todas. É complexa como as famílias sabem ser. Amor, ódio, maldade, culpa, perdão... cada um dos cinco irmãos Parondi possui um papel na família bastante similar ao que vemos na nossa própria ou em outras ao redor. O problemático irmão que espera que o mundo esteja ao seu dispor e que culpa os outros pelo azar que ele causa a si mesmo. O irmão quieto e esforçado que pensar ser responsável por toda a família - e faz um disserviço a todos que pretende ajudar, apesar de suas intenções sinceras e nobres. Há ainda aquele que não quer nada mais do que constituir sua prórpia família. Outro é o irmão que traz bom senso e discernimento à família. Vemos também o irmão mais novo, que presencia todo o drama em sua casa, tentando dar um sentido ao que ocorre com os mais velhos. E, por fim, claro, há a mãe, que não consegue perceber como os antigos padrões familiares não se sustentam mais por muito tempo, além de conduzirem a um grande e até mesmo trágico conflito. 

Uma sociedade que está se afastando da vida tradicional no campo, os aspectos sociais da vida em grandes cidades estão representados aqui. Visconti não se eximiria de dicutir as questões sociais do seu tempo sob o ponto de vista do realismo, no contexto da cinematografia italiana da época. Mas é curioso que, apesar de um arguemento recorrente na diegese de que todos os problemas dos Parondi resultariam de sua saída do campo para a cidade. uma das últimas no filme falas defende o oposto: o mundo está mundando, diz um dos irmãos (o mais perspicaz dos cinco, eu penso), e provavelmente o lugar de onde vieram também não seria mais o mesmo. Uma reflexão assim cuidadosa é notável em quando presente em um filme (e nas narrativas de ficção em geral).

A fotografia é maravilhosa e, claro, por se tratar de Visconti, é também bastante crua. É absolutamente brutal, e as imagens contam a respeito com perfeição, juntamente com o texto magistral. Eu me vi constantemente maravilhada por ambos, e ão conseguia acreditar o quão bom esse filme de fato é. Um fime para a vida. 

Até mesmo os diálogos dublados, com a desconfortável falta de sincronia entre entre o som e o movimento dos lábios consegue afetar a intensidade de todas as atuações. O Rocco de Alain Delon carrega um conflito interno impossível, é triste e dolorido de presenciar. Ele consegue ver claramente o que ocorre em sua família, mas seu modo de lidar com essas questões não é bem sucedido - é uma reação comum, no entanto, e que normalmente testemunhamos num ambiente familiar: um membro da família tenta desesperadamente corrigir o que está errado, agindo no lugar de outros. Não há como alcançar esse intento. Trata-se na verdade de uma crença ilusória, que acaba por acarretar mais conflitos e problemas. Asism sendo, após as primeiras cenas, eu consegui me desconectar da falta de sincronia na fala (algo que costuma me incomodar imensamente) para me concentrar no que importava ali: a excelente produção cinematográfia à minha frente. Um filme excepcional e belo, uma história honesta e palpável.

http://onemovieadaywithamelie.blogspot.com.br/2015/06/day-105-rocco-and-his-broters-june-22.html




Rocco e seus Irmãos (Rocco i suoi Fratelli). Dirigido por Luccino Visconti. 
Com: Alain Delon, Renato Salvatori, Annie Girardot. Roteiro: Luccino 
Visconti et al. Itália/França, 1960, 177 min., Mono, P&B (DVD).

Day 104: A Marca da Maldade (21 de junho)

Um fim de semana com cineastas incríveis. 

Estudei a respeito de A Marca da Verdade (Touch of Evil), de Orson Welles, em uma turma de história do cinema há quase oito anos. O professor, claro, nos mostrou a famosa primeira cena do filme, uma sequência sem cortes. É absolutamente genial, e assim eu esperava um igualmente notável filme. 

E de fato foi, em muitos aspectos, exceto quanto à história em si - uma importante parte do filme para mim. Escolhas errôneas de elenco (E isso ao meu referir a atores notáveis como Charlston Helston e Marlene Dietrich here), uma mão excessivamente pesada na direção, uma narrativa confusa... Eu sei que sou voz vencida aqui. François Truffaut e Jean-Luc Goddard eram muito elogiosos quando se referiam a esse filme. Todos são, na verdade. Mas eu não consegui me identificar com nada ali para além da espetacular fotografia. Os quadros são insanos de tão bons, lindamente orquestrados, especialmente se considerarmos a sua época - uma marca de Welles de fato. Mas o resto não acompanhou a genialidade dos enquadramentos, como eu pensei que ocorreria. 

Eu gosto muito dos chamados filme noir, mas esse foi dramático demais para mim. A ironia, a elegância no modo de construir as cenas, as inúmeras sutilezas presentes nesse tipo de produção estão ausentes aqui. Há um contínuo senso de que algo está muito errado durante todo o filme, e eu não conseguia me livrar dessa sensação. 

Outro elemento aqui é a controvérsia que fez parte de todas as etapas de desenvolvimento do filme, especialmente na pós-produção, quando Welles foi demitido, novas cenas foram filmadas, de modo que a edição final não casava com a visão de Welles. O diretor, então, escreveu um manifesto de 52 páginas à Universal a fim de manter suas ideias, mas sem resultados favoráveis a ele. A versão que eu vi hoje começa com um esclarecimento por escrito na tela, explicando que a essa cópia remasterizada de 1998 é uma tentativa de concretizar a visão de Orson Welles. 

No entanto, não estou muito segura dessa versão. Uma sensação de desconforto me acompanhou durante todo o filme. Eu penso que ele foi muito ambicioso na verdade. Mas, ao mesmo tempo, se um cineasta do calibre de Welles não pode ser ambicioso, quem mais seria? 


http://onemovieadaywithamelie.blogspot.com.br/2015/06/day-104-touch-of-evil-restored-version.html

O timing dessa cena é incrivelmente bom.
A Marca da Maldade (Touch of Evil)Dirigido e escrito por Orson Welles, 
a partir do livro  Badge of Evil, de Whit Marterson. Com: Chalston Helston, 
Janet Leigh, Orson Welles. EUA, 1958 (1998), 150 min., Mono, P&B (DVD).

PS: Só para deixá-lo a par desse importante acontecimento, estou a 30 min. do início da nova temporada de True Detective. We get the world we deserve...

PPS: Fragmento: True Detective, temporada 2, episódio 1; La Belle et la Bête, 2014. 




17 de jul de 2015

Day 103: Dersu Uzala (20 de junho)


Como pode um homem viver numa caixa?
Dersu

Na véspera do início do inverno no hemisfério sul, decidir ir à Sibéria com um filme que eu levei tempo demais para ver. 

Dersu Uzala, dirigido por Akira Kurosawa em 1975 a pedido do embaixador russo à época, é muito mais do que eu esperava. Os primeiros anos do século XX testemunharam muitas mudanças ao redor do mundo, até mesmo nas regiões mais remotas. Os dois personagens principais representam os deferentes impactos da modernidade: um capitão russo encontra um caçador tribal em uma de suas missões de reconhecimento de território. Um confronto poderia facilmente surgir do seu encontro, mas o que acontece é quase que o contrário: um profundo respeito mútuo e uma grande amizade nos prova como diferentes formas de vida são de possível coexistência -  mesmo que a partir de dois homens tão especiais. 

Mas há coisas que não estão sob o controle dos dois. O mundo moderno, na visão de Kurosawa, não permite a existências dos modos mais simples de outrora. Nesse sentido, o pensamento do cineasta encontra o de Walter Benjamin - eu mencionei suas ideias há três posts. O aprendizado por experiência e não apenas pelo intelecto é uma grande lição aqui, e o Capitão valoriza e admira tudo o que Dersu compartilha com ele por meio de ações e palavras simples. 

A fotofrafia é um destaque na forma de contar a história aqui. A cada cena, eu não conseguia evitar de pensar o quão difícil deve ter sido a filmagem de cada uma delas. O filme é tão arrasadoramente lindo, que já nos primeiros  minutos eu me encontrava em um estado quase meditativo. Alguns filmes têm esse efeito, e Dersu Uzala o faz  de maneira magistral nesse e em vários outros aspectos. 

De outro lado, há a tristeza, a perda e a futilidade de alguns elementos da modernização, também apresentados por Kurosawa, e assim tom final do filme é de luto e melancolia - um sentimento que se adequa ao que presenciamos na útlima parte dessa história, com Dersu perdendo suas conecções com a natureza, perdendo a si mesmo num mundo que não faz mais sentido para ele. É devastador, principalmente pelas imagens poéticas de Kurosawa. 

Um último pensamento: Há cineastas que nós respeitamos e admiramos pelas realizações de toda sua vida, mesmo que não tenhamos ainda conhecido alguns de suas mais elogiadas obras. Assim ocorreu comigo com alguns desses cineastas. Depois de assistir a Manhattan, 1979, de Woody Allen, e a Taxi Driver, 1976, de Martin Scorsese, há cerca de dois anos, eu finalmente pude entender o quanto eles são geniais - apesar de já o admirá-los há tempos. O mesmo aconteceu agora com Kurosawa' em Dersu Uzala. Um filme espetacular, que transcende seu próprio tempo - justamente por isso são conhecidos os clássicos. 

http://onemovieadaywithamelie.blogspot.com/2015/06/day-103-dersu-uzala-june-20.html




Dersu Uzala. Dirigido por Akira Kurosawa. Com: Mksim Munzuk, Yuriy
Solomin. Roteiro: Akira Kurosawa, Yuriy Nagibin a partir do livro Dersu,
Okhotnik
, deVlaldimir Arsenev. URSS/Japãpo, 1976, 144 min., 76 mm 6 Track,
(70 mm prints) Mono (35 mm prints), Color (Sovcolor)  (DVD).


PS: A primeira vez em que percebi como um filme pode ser uma forma de meditação foi com A Partida  (Okuribito),  uma produção japonesa de 2008, Durante os créditos finais, ninguém deixou o cinema. Um silêncio tomou conta de todos nós, e eu me dei conta como eu estava meditativa. Já havia acontecido comigo antes, mas essa foi a primeira vez que eu pude dar um nome a esse estado.

PPS: Eu costumo chamar meu apartaento de uma pequena Sibéria. O sol apenas alcançar parte da sala durante dois meses por mês, e nao mais. Não estou reclamando, essa é uma boa característica numa cidade tão quente. Mas ontem, estava frio para os padrões de Brasília: 16 C. Dersu Uzala, então, foi uma escolha apropriada a uma noite gelada. Hoje de manhã, a cidade pareceu lembrar que as estações existem, e o dia amanheceu cinzento para saudar o pirmeiro dia do inverno :)

14 de jul de 2015

Dia 102: Ernest & Célestine (19 de junho)

Eu costumo assistir a animações com os meus sobrinhos menores, mas às vezes eu vejo alguma por conta própria. À noite, sem me sentir muito bem, com uma gripe persistente e chata, eu escolhi o que parecia um filme querido como companhia. 

E eu acertei novamente. Ernest & Célestine é baseado nos livros da escritora e ilustradora belga Gabrielle Vincent - pseudônimo para Monique Martin, falecida em 2000. A Wikipedia me deu essa informação, e eu fiquei mesmo triste com esse fato. Suas cores são cativantes, seus cenários são belos. Estou chutando aqui, mas penso que o filme tentou reproduzir suas pinturas em aquarela. 

As imagens em aquarela são os verdadeiros narradores aqui. O conto de duas espécies diferentes de párias sociais se tornou real para mim por meio dessas pinturas. São muitas as formas de nos sentirmos inadequados no ambiente quenos cerca, e comumente as crianças lidam com essa inadequação constantemente. Adultos também, e é aí que entra Ernest, um urso que vive na "parte boa" da cidade, a que fica na superfície, mas que, apesar desses aspecto favorável, não consegue se ajustar à sociedade. Célestine está na área desprezada, o subsolo, e sua inadequação dentro de uma comunidade já banida é exposta por seus pensamentos sobre o mundo - retratados em seus desenhos, considerados um aborrecimento pelos adultos que a cercam. 

Juntos, os dois parecem um par impossível, mas claro que não é assim. Sua amizade não é apenas um produto dos contos de fadas, com as duas diferentes comunidades parecem considerar. Ela é real, bela e comovente - além de desafiadora, claro. 

Toda sociedade tem regras para manter seus cidadãos nos trilhos desejados. Enquanto essas regras permitem a coexistência, elas também podem criar abismos imensos que mantêm distante os que são considerados inadequados. E é sobretudo pela inadequação que nós podemos mudar aquelas regras que persistem sem nenhuma outra razão a não ser manter as pessoas separadamente - um abismo bastante útil política e economicamente. A meu ver, Ernest & Célestine aborda com ênfase essa questão, a partir do incrível poder criativo da inadequação. 

http://onemovieadaywithamelie.blogspot.com/2015/06/day-102-ernest-celestine-june-19.html

Ernest et Celestine. Dirigido por Stéphane Albier et al. Com: Lambert
Wilson, Pauline Brunner 
(Forest Withaker e Mackenzie Foy dublam a versão  em 
inglês). Roteiro: Daniel Pennac a partir dos livros de Gabrielle Vincent. França/
Bélgica/Luxemburgo, 2012, 88 min. Dolby Digital, Color - animação (Netflix).


PS: Eu escrevei este post diante da TV, assistindo a O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook), o filme do dia 89 (6 de junho).  Eu nunca consigo resistir a ele, e ao assisti-lo pela milionésima vez, lembrei de algo que esqueci de mencionar antes. Há uma frase dita por Pat de que gosto muito. Ao reencontrar o irmão depois de bastante tempo, ele diz: "Eu não sinto nada além de amora por você, brother", colocando fim a um momento desconfortável entre os dois. Essa fala resume tantas coisas, que eu sempre me encanto com ela. Eu fiquei triste com o fato de o irmão de Pat no filme ser retratado como um babaca sem consideração, enquanto no livro ele é um cara que apóia o irmão mais novo sempre. 



Day 101: WildLike (18 de junho)

WildLike é o tipo de filme que nos leva a refletir sobre questões bastante de uma maneira delicada. Durante os créditos finais, eu fiquei estática em frente à TV, sem vontade de me mexer. Apenas permaneci ali, pensando sobre os personagens, enquanto ouvia a música que tocava. A verdade é que eu não sabia para onde ir depois do que havia presenciado. 

Então eu vim para cá, escrever.  

Abuso, abandono, negligência, desespero... e esperança - sempre ela. Passamos por tudo isso na companhia da quieta e perturbada Mackenzie. Aliás, não é bem dela a perturbação. A sinopse do filme dá a entender que ela é uma adolescente problemática. O problema dela, na verdade, são os outros, uma família ausente e abusiva e a falta de um lugar e pessoas que a acolham e ajudem. Dessa forma, ela segue adiante, esperando por uma solução, com o Alasca e suas paisagens de tirar o folego como pano de fundo. 

Com um ritmo silencioso, forte, não há necessidade de muitas palavras nesse filme. Inferimos a forma de ser de cada personagem e as dificuldades que enfrentam sem necessitarmos de muita explicação. Essa é prerrogativa de toda boa narrativa, e um presente para nós, espectadores. 

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WildLike. Dirigido e escrito por Frank Hall Green. Com: Ella Purnell,
Bruce Greenwood. EUA, 2014, 104 min., Color (Netflix).

PS:  Depois da Islândia, meu lugar de destino será o Alasca, que tem estado nos meus planos de viagem por muito tempo já. Esse filme reforçou esse desejo de uma forma muito convincente. 

Day 100: Uma Boa Mentira (17 de junho) - participação especial de Sense8

Depois de chegar ao fim da primeira temporada de Sense8, eu achei que não conseguiria suportar um filme frio como o de ontem, por exemplo. Procurando no Netflix,  eu encontrei um que parecia combinar com meu humor nesse dia.

Não entendo como não ouvi falar de Uma Boa Mentira (The Good Lie) antes. Trata-se de um filme de 2014 sobre  "Os Garotos Perdidos" do Sudão, como são conhecidos os refugiados sudaneses que migraram para os Estados Unidos no início dos anos 2000. O programa foi suspenso após o 11 de setembro, para retornar em 2004.  Por meio de uma loteria, refugiados eram selecionados para viverem em uma cidade dos EUA. O filme conta a respeito do programa pelos olhos de cinco desse sudaneses. 

Em alguns momentos meu coração parecia parar. Aquele velho sentimento de impotência retornou cm força total. As cenas relativas à guerra civil no Sudão são devastadoras. Tudo que esse grupo de irmãos e amigos vivenciam, sua infância perdida para a guerra, a perda dos seus parentes e irmãos, a longa peregrinação por um país em que é impossível permanecer, a chegada a uma nova mas estranha possibilidade... é dolorido e triste para dizer o mínimo. Mas seguimos nessa forte história pelas mãos acolhedoras daqueles que passaram pelo impossível. 

Um programa institucional como o Lost Boys of Sudan é de grande importância, mas ainda é uma forma institucional de cuidar de pessoas. Esse aspecto é ressaltado quando os cinco refugiados chegam aos Estados Unidos. As pessoas designadas para os ajudarem na sua transição não entendem o quanto esse novo ambiente é alienígena para eles. Eu gosto desse elemento da história, que mostra como essa mudança não é só um evento feliz ou um lance de sorte. Mesmo que se trate de um ótimo programa, os refugiados precisam deixar para trás a única forma de viver que conhecem. Não é simples e fácil. Burocracia também tem um papel de destaque na questão. E não é porque una nova oportunidade se apresenta, que todas as perdas e dor e violência automaticamente desparecem. O que faz a diferença ao final são as pessoas, incríveis indivíduos que agem de forma a superar algumas das discrepâncias criadas pela burocracia.  

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E aqui eles mostram as suas "malas".

The Good Lie. Directed by Phillipe Falardeau. With: Alnold Oceng (son
of a refuge), Ger Duany, Emmanuel Jal, Kuoty Wiel (the last three were
refugees - Jal was a child soldier). Written by: Margareth Nagle. Kenya/India/
US, 2014, 110 min.,  SDDS/Datasat/Dolby Digital, Color (Netflix). 


Normalmente, eu falaria de Sense8 em um post scriptum, mas após alguns dias com a história criada pelos revolucionários Wachowski, não havia como falar a discutir a respeito em letras pequenas. 

Já no primeiro episódio da séries, encontram-se delineados tudo o que faz dessa uma produção excelente e de relevância. O desprezível machismo surge nas diferentes formas em que manifestado no mundo - frases como "Uma mulher não serve para fechar nada, apenas para abrir..." ou "Ela é boa DJ para uma mulher" dizem muto sobre alguns dos preconceitos discutidos nessa série. É também nesse episódio que um aspecto essencial é apresentado na opinião de Noomi, uma das oito protagonistas na história. Em determinado momento, uma garota a questiona sobre sua opinião a respeito de como a terminologia LGBT pode ressaltar a diferença. A garota fica brava com ela, dizendo que a comunidade gay lutou muito por seus direitos e reconhecimento. 

A opinião de Noomi encontra a minha própria nesse sentido. Por um tempo já eu tenho pensado como algumas das nomenclaturas adotadas na luta pelos diretos humanos podem de fato ressaltar as diferenças, contrariamente ao seu propósito essencial. De forma alguma estou diminuindo os esforços de quem trabalha ativamente por um mundo melhor, mais justo. Mas creio que, sem mesmo nos darmos contas, essas políticas ressaltam a diferença, e não a igualdade. E é exatamente nesse ponto que  Sense8 assume um papel importante e pioneiro na busca de um mundo mais igualitário. 

Lana e Andy Wachowski
Li no imdb.com o quanto Andy Wachowski ferozmente protege sua irmão, Lana, que passou por uma mudança de sexo há aproximadamente sete anos. Essa intensidade é uma parte importante e uma das maiores forças dessa história sobre oito indivíduos de diferentes partes do mundo que têm entre si uma forte e profunda conexão.  Trata-se de um conto de ficção científica, e o porquê desa ligação é explicada de forma fantástica, como em vários argumentos do gênero. No entanto, já afirmei aqui como fantasia e ficção científica podem se se referir à vida de uma maneira que os fatos apenas não conseguem. Essa perspectiva é especialmente real em Sense8.

Empatia é algo raro no mundo hoje. Se é que já foi corrente na história do mundo em algum momento, na verdade. Essa é uma das razões por que parece ser tão difícil entender diferentes culturas, visões do mundo, orientações sexuais, formas de vida diversas da nossa própria. É absolutamente triste que as coisas sejam assim desde sempre. Humanidade é uma, os seres humanos são uma mesma espécie, e não deveríamos precisar viver do mesmo jeito para sermos capazes de compreender isso. Do meu pequeno e literal quadrado no meio do Brasil eu posso ver as cosias dessa forma (graças aos meus vários amigos incríveis e aos filmes, claro - não podemos esquecer os filmes).  Minhas próprias escolhas não excluem o entendimento de diferentes formas de viver. Eu realmente não entendo porque essa percepção teria de ser tão complicada. 

A busca por igualidade no que se refere a gênero, por exemplo, está no mundo. Mas muitos ainda mantêm a opinião de como o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo é errado, uma anormalidade e até mesmo um crime. Mesmo que muitos não ousem expressar essa opinião fora dos ambientes privados, o preconceito ainda prevalece. Sob outra perspectiva, há muitas produções para a TV e o cinema que trazem o foco em relações homossexuais, e elas são uma importante forma chamar a atenção para a necessidade de igualdade. Mas, exceto por alguns poucos, eles acabam por reafirmar a diferença. Eu não costumo acompanhar essas séries por muito tempo. Novamente, não digo que elas não sejam importantes formas de reflexão, mas há algo ali que não me mantém à distância.

Durante os primeiros episódios de Sense8, eu pude identificar a razão pelo meu não envolvimento, apontado acima: para mim, todas as histórias até agora (repetindo, com algumas exceções) não me diziam muito. O foco principal era a existência de opções diferentes. Sense8, por outro lado, enfatiza o quanto iguais somos. Não há espaços para o preconceito - a empatia entre os personagens argumenta fortemente contra qualquer tipo de julgamento nocivo. Trata-se de uma empatia ainda rara no mundo, com exceção de alguns indivíduos, e é por essa razão que a série, para mim, se mostra tão importante nas discussões atuais sobre liberdade de escolha, igualdade, gênero, justiça social, comércio justo. Está tudo ali, em inúmeros preciosos detalhes, por meio de uma produção impecável. 

Contando com oito (incríveis) protagonistas, não vemos o tempo passar. O final de cada episódio chega cedo demais. E todos os relacionamentos, conecções, referências são claramente apresentadas de forma cuidadosa. Essa série tem uma voz clara e forte, que me encantou bastante. Algumas referências e relações são muito boas, parte de um quebra-cabeças maior. Há importantes diálogos, ação da melhor qualidade (não poderíamos esperar menos dos Wachowski), um vilão bizarro e assustador (Chamado Whispers...), cenas divertidas, personagens cativantes, interações muito queridas, sexo explícito e belamente encenado. Mas, acima de tudo, há ali oito pessoas que param diante de nada para apoiarem e ajudarem umas as outras, cada qual um indivíduo que faz parte de um todo. Assim como a humanidade deveria perceber que é em essência. E vai, eu acho, com a ajuda de artistas geniais e ousados, sempre. 

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Eu realmente gosto desses oito :)
Certo, eles são lindos, atraentes ... Não estou reclamando,mas é inevitável questionar
quanto tempo ainda vai levar para essa outra conquista necessária chegar à televisão.

Sense8. Criada por J. Michael Straczynki, Andy Wachowski, Lana Wachowski.
Com: MIguel Angel Silvestre, Doona Bae, Amil Ameen, Jamie Clayton, Tuppense
Middleton, Max Rielmelt, Brian J. Smith, Tina Desal. EUA, 2015 (Netflix).



PS: Apesar de inglês ser o idioma predominante nessa série de TV norte-americana, cada diferente cultura apresentada nele tem sua voz própria, seja pela nacionalidade dos atores, pelo cenário (as filmagens ocorrem em 9 diferente cidades ao redor do mundo), ou ainda por outros detalhes na produção. Um desses detalhes é a trilha sonora. Em relação à Islândia (um lugar dos sonhos para mim), há a bela participação especial de Sigur Rós, banda islandesa  procedente de Reykjavik. Sua música melancólica e de cortar o coração se adequa perfeitamente a essa história, e eu me emocionei em vê-la na últlima cena dessa primeira temporada (outra de suas músicas está no primeiro episódio, relacionada à personagem islandesa antes mesmo de sabermos sua origem, mas eu não a identifiquei - Rodrigo, que me apresentou Sigur Rós, chamou minha atenção para essa participação. Assim, eu acabei considerando as duas músicas como um elo entre o início e o fim dessa história).




PPS: Alguns pensamentos desconexos me ocorreram durante Sense8, a partir dos bem construídos personagens e de vários detalhes na história, para além do que já dito aqui. São tantos que é impossível lembrar de todos. Alguns são: Arte como fundamental em suas diversas formas (Hernando é um personagem que explicita essa ideia). Endorfinas podem nos colocar em muita confusão :) Nós nos identificamos com diferentes pessoas em casa momento específico de novas vidas. Livros, filmes, música são uma maneira de estar no mundo, de nos relacionarmos com outros, mas também podem ser uma escolha solitária. Alteridade é um modo de entendermos a nós mesmos - e a arte é um caminho para a alteridade.

Outro pensamento foi como seria bom ver alguém com uma vida totalmente diferente desses personagens escrever essa história. Seria empatia no seu melhor. Mas logo a seguir pensei no que disse Walter Benjamin sobre a narrativa: como um verdadeiro narrador conta a partir da experiência. Ele não informa, ele transmite experiência pelas diferentes gerações com as suas histórias. Isto é o que compõe a arte de narrar para o pensador alemão: narrar a experiência por meio de histórias. Escrevemos sobre o que sabemos, e sabemos a partir da vivência e da experiência. 

PPPS:  Séries de TV têm se mostrado um excelente meio para contar boas histórias. O atual formato de 10 a 12 episódios, em vez dos tradicionais 22, apresenta narrativas sem muita enrolação ou necessidade de preencher o tempo. Produtores, roteiristas e atores do cinema encontraram na TV um lugar próprio para expressarem diferentes e relevantes percepções do mundo em produções impecáveis. Algumas dessas séries têm aberturas maravilhosas, tanto que, mesmo numa maratona, eu não consigo passar por elas, pois são parte da narrativa. 

















13 de jul de 2015

Day 99: Amores Imaginários (16 de junho)

Há algo peculiar a respeito de Amores Imaginários (Les Amours Imaginaires) desde o começo, a partir mesmo de seu nome: não há nada que se realcione a amor nesse filme ou em seus personagens, mesmo que imaginário. O que encontrei nesse filme foi a ausência total de vida. 

Dirigido pelo jovem e badalado cineasta canadense Xavier Dolan (o mesmo do excelente e perturbador Mommy), ele me colocou em tal estado de desgosto que eu não podia acreditar no que via. Entendo que talvez sua intenção fosse justamente debater o quanto uma pessoa pode ser e a busca por preencher esse vazio interno. Dois amigos buscam a atenção de cara à espera de... não sei do que. Não tenho nem certeza se Francis (interpretado por Dolan) e Marie são familiares com a noção de amor. Obviamente, eles elegem como objeto mútuo de amor um bonito tão maravilhado consigo mesmo, e igualmente incapaz de amar, que ele precisa confirmar a sua imagem por meio de outros. 

O que não é raro de ver na vida cotidianamente... mas ao menos há um pouco de vida nessa busca, o que falta totalmente a esse filme, pelo menos a meu ver. 

Eu estou exagerando: Bom, foi assim que reagi. Um filme é uma forma perfeita de discutir o mundo desalmado em que vivemos, com pessoas igualmente sem alma ao redor, mas esse filme é tão conceitual e estetístico que não há vida ali. Não há alma, não há honestidade, mas apenas conceitos. Sim, algumas cenas são belas, mas elas só me deixaram ainda mais irritada. Até que eu não queria mais nada anão ser que esse filme acabasse logo para eu poder voltar a Sense8.

Nesse ponto há talvez um motivo para o meu desgosto: depois de passar parte do meu dia e noite com a nova produção dos Wachowski, eu estava encantada, repleta de amor e empatia pela humanidade. O mundo, a vida, o céu e o universo inteiro (já que estamos falando de exageros...). Pessoas diferentes, imperfeitas, incríveis, unidas pela própria condição humana. Isso é vida. Não dá para se livrar dele a fim de contar uma história e ainda assim esperar que alguém possa se identificar com ela. Ou ao menos não se pode esperar isso de mim - a cotação no imdb.com está boa, na verdade. Mas não por mim. Eu prefiro meus filmes vivos. 

http://onemovieadaywithamelie.blogspot.com/2015/06/day-ninety-nine-heartbeats-june-16.html


Eu vi essa foto e pensei em como esse filme parecia caloroso. Mas é só aparência,
 infelizmente. Esses três estão abraçados somente em raiva, desprezo e 
superficialidade. O que é de uma inutilidade enorme. Eles poderiam estar abraçados
uns aos outros em vez disso. 
Amores Imaginários (Les Amours Imaginaires). Dirigido e escrito por 
Xavier Dolan. Com: Xavier Dolan, Monia Chokri, Niels Schneider. 
Canada, 2010, 101 min., Dolby Digital, Color (Netflix).





PS: Fragmentos: Sense8, temporada 1, episódios 5 a 9. 

PPS: Uma das principais e mais constantes canções nesse filme é Bang Bang, de Sonny Bono, na voz de Dalida. É linda e de partir o coração, mas por si só nao foi capaz de dar vida ao filme. Eu lembro de uma outra participação dessa música na abertura de Kill Bill: Vol 1, com Nancy Sinatra. Eu estava tão hipnotizada por ela, num exemplo de como é a sequência de abertura de um filme é importante para uma história.