18 de ago de 2015

Dia 124: A Megera Domada (11 de julho)

Se eu não tivesse visto algumas outras versões dessa peça de Shakespeare antes, eu poderia ter questionado apaixonadamente a visão de Franco Zeffirelli para A Megera Domada (The Taming of The Shrew),  em 1969, com Elizabeth Taylor e Richard Burton (outro DVD que eu comprei há anos e que me esperava pacientemente para ser aberto). 

Mas essa é a minha história favorita do bardo, então eu já a havia visto anteriormente na TV e no cinema. A BBC produziu uma série, ShakespeaRE-Told, que apresenta algumas das obras de Shakespeare sob uma perspectiva atual. A versão para The Taming of The Shrew faz uma releitura da peça de que gosto muito. É tão divertida, eu ria alto e muito, mas apresenta a história com uma profundidade que é apenas insinuada no filme de 1969. Desa forma, eu não me angustiei com o que parecia um machismo perverso na visão de Zefirelli. 

O título da peça se refere a uma domesticação... a uma megera... Mas essa é apenas a superfície. O que a sociedade na história de Shakespeare vê e reconhece. O que acontece intimamente com o casal protagonista cabe somente a eles saber, e esse aspecto por si torna a história bastante interessante. 

Katherine e Petruchio não se conformam às regras sociais predominantes no seu tempo e lugar. Eles se rebelam, são incontroláveis... Não se adequa ao senso comum social. Não é uma surpresa,então, que acabem reconhecendo a si próprios um no outro. Mesmo assim, a paz entre eles demora um pouco mais para se estabelecer, se é que assim será algum dia.  

A questão aqui não é domesticar, domar, mas sim o entendimento, a empatia entre os dois rebeldes, que leva a um relacionamento não tradicional que desafia todas as expectativas sociais e familiares. É genial, mas eu somente consegui perceber dessa forma com a produção de 2005 da BBC.  

Nesse contexto, eu pude admirar o filme de Zeffirelli. Precisei me lembrar constantemente de que era ele na direção, porque a todo momento me maravilhava com a beleza das cenas. O filme é impressionante, irônico, belo, repleto de detalhes inteligentes, com dois protagonistas representados por atores que tampouco se conformaram com uma vida mediana. 

http://onemovieadaywithamelie.blogspot.com/2015/07/day-124-taming-of-shrew-july-11.html


A Megera Domada (The Taming of the Shrew)Dirigido por Franco Zeffirelli. 
Com: Elizabeth Taylor, Richard Burton, Cyril Cusack. Roteiro: Franco
 Zeffirelli et al. a partir da obra de William Shakespeare. Itália/EUA,
1969, 122 min., 70 mm 6-track/Mono/4-Track Stereo, Color (DVD).

PS: Taming of the Shrew da BBC se refere ao filme de 1969 em muitos aspectos. A caracterização de Rufus Sewell para Petruchio tem muto da performance de Richard Burton em alguns momentos, especialmente com o seu histérico "Kiss me, Kate!". Vale conferir essa excelente versão abaixo (Ou ver o filme todo, se preferir :):






PPS: Outra versão da peça de Shakespeare de que gosto muito é menos óbvis, mas igualmente boa: 10 Coisas que eu Odeio em Você (10 Things I Hate About You1999) é uma versão fofa e inteligente, e é genial. Com o saudoso Heath Ledger e a subestimada Julia Stiles, esse é um dos meus filmes favoritos. 











Dia 123: Vidas que se Cruzam (10 de julho)

Vidas que se Cruzam (The Burning Plain), desculpem o trocadilho com o o título original, é um filme plano. Sua narrativa fragmentada, as conexões misteriosas entre os diferentes personagens e temporalidades, os motivos ocultos por detrás de suas ações poderiam ser elementos de suspense, mas, aqui, eles não são capazes de transformar esse filme em algo mais.  Sim, ele é interessante, tem um bom elenco, uma edição decente, mas é isso. Eu não consegui me comover com a historia, não fiquei ansiosa para saber o que viria a seguir, e já desde o início eu havia sacado o "grande segredo" da trama (e isso não é comum para mim, eu sempre sou a última a descobrir o mistério de uma história). 

Jennifer Lawrence apresenta uma aboa atuação dois anos antes do filme que a tornou famosa, Inverno da Alma (Winter's Bone, 2010 - um filme impressionante). Charlize Theron é triste, angustiada. Ambas as atrizes se apresentam de uma forma que constrói a história de forma intensa. Mas faltou algo ali para mim, e se trata de um filme com um tema que normalmente capta a minha atenção - nossa ligação com as bagagens familiares. Ao final, no entanto,  eu tentava pensar em algo para escrever a respeito desse filme, porque ele não me disse muito, como é possível perceber por este post. 

http://onemovieadaywithamelie.blogspot.com/2015/07/day-123-burning-plain-july-10.html




Vidas que se Cruzam (The Burning Plain)Dirigido e escrito por Guillermo
 Arriaga. Com: Charlize Theron, Jennifer Lawrence, Kim Bassinger (que há
muito tempo eu não via). EUA/Argentina, 2008, 107 min., Dolby Digital/
DTS/SDDS, Color (Netflix).

E lá se vai o quarto mês...

Inquietos, 2011


Day 93: As Mulheres do 6º Andar, 2010
Day 94: PS: Eu te Amo, 2007
Day 95: Amaldiçoados, 2005
Day 96: Um Brinde à Amizade2013
Day 97: Sob o Mesmo Céu2015
Day 98: Uma Notícia Inesperada,  2014
Day 99: Amores Imaginários, 2010
Day 100: Uma Boa Mentira, 2014 + participação especial: Sense8
Day  101: WildLike2014
Day 102: Ernest & Celestine, 2012
Day 103: Dersu Uzala, 1975
Day 104: AMarca da Maldade  - versão retarurada, 1958 (1998)
Day 105: Rocco e seus Irmãos, 1960
Day 106: Jurassic World, 2015
Day 107: O Exterminador do Futuro, 1984
Day 108: O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final, 1991
O Exterminador do Futuro 3: A Rebelião das Máquinas, 2003
Day 109: Minions2015
O Exterminador do Futuro: A Salvação, 2009
Day 110: A Menina dos Campos de Arroz2010
Day 111: Orgulho e Preconceito, 2005
Day 112: Terapia do Sexo2012
Day 113: O Cidadão do Ano, 2014
Day 114: Inquietos, 2011
Day 115: O Exterminador do Futuro: Gênesis2015
Day 116: Locke2013
Day 117: Enquanto Somos Jovens, 2014
Day 118: O Melhor de Mim, 2014
Day 119: Clube dos Suicidas2001
Day 120: Divertida Mente2015
Day 121: Maze Runner, 2014
Day 122: Minions2015


Locke, 2013

Dia 122: Minions (9 de julho - de novo)

Você lembra do reencontro feliz com amigos amados no dia 121? Dois deles são sobrinhas queridas do coração que me convidaram para ir ao cinema. Nós havíamos planejado assistir a Cidades de Papel (Paper Towns), mas acabamos mudando para os Minions, que eu já havia visto. Mas isso não importava na verdade. O fundamental ali era a companhia das duas queridas :)

Num cinema totalmente lotado, eu pude confirmar minha primeira impressão a respeito do filme: as primeiras cenas são boas (mas minhas amigas não riram tanto quanto eu imaginei), o desenvolvimento é um pouco monótono, e a cena com a música dos Beatles depois dos créditos finais é muito fofa. Eu fui capaz também de perceber detalhes que haviam passado desapercebidos antes. Eu não me incomodo em ver um filma mais de uma vez, mesmo em se tratando de uma produção de que não gostei muito, como Minions. Foi uma sessão divertida, com duas queridas que eu não via há 15 anos, num cinema cheio e barulhento em julho. 

http://onemovieadaywithamelie.blogspot.com/2015/07/day-122-minions-july-9-again.html



Desde a última vez, a coleção de Minions aumentou um pouco....

Minions. Dirigido por Kyle Balda, Pierre Coffin. Com: Pierre Coffin, Sandra
Bullock, John Hamm. Writer: Brian Lynch. EUA,  2015, 91 min., Datasat/
SDDS/Dolby Digital/Dolby Atmos, Color, Animation (Cinema).








Dia 121: Maze Runner: Correr ou Morrer (8 de julho)

Um dia corrido, um encontro feliz à noite com amigos muito amados, já era tarde e eu ainda não havia visto o filme do dia. Duas sobrinhas do coração me recomendaram Maze Runner: Correr ou Morrer (The Maze Runner),  e eu então decidi por ele.  

Eu li as primeiras páginas do primeiro livro há algum tempo, mas não sabia nada a respeito da história a não ser que um garoto chega, dentro de uma jaula de metal, a um lugar desconhecido, sem lembrar de nada a respeito de sua vida.   Assim, apesar de estar com muito sono e bastante cansada, numa noite atipicamente fria, eu me mantive interessada no que via. 

Não saber o que iria acontecer para mim é novidade, porque geralmente eu já conheço a história numa adaptação de livro para o cinema. A ação nesse filme é boa, com um ritmo nervoso, os personagens não são os melhores que já vi por aí, mas eu consegui me importar com eles. Eu estava curiosa sobre o que viria adiante, e esse é um fator essencial a uma história - fazer com que o leitor/espectador se pergunte sobre o que vai acontecer a seguir. O final não é super original, uma parte já poderíamos esperar pela sua semelhança com outras narrativas distópicas atuais, mas ele não foi infame como tantos outros.  Os elementos mais correntes nesse tipo de história estão ali, mas na primeira parte eu me perguntava como eles iriam inserir o esperado interesse amoroso do herói ali... e logo veio minha resposta. Os próximos filmes da série, provavelmente, serão ainda mais reconhecíveis dentro do gênero, mas estou curiosa para vê-los. Assim sendo, no fim da noite - o começo de um outro dia, na verdade -, foi legal chegar  a esse filme, num dia em que eu não seria capaz de ver nada muito desafiador. 

Concluo este post com a seguinte observação: deve ser bastante complicado ser um adolescente nos dias atuais, especialmente na ficção. Eu me interesso muito por narrativas distópicas, e a maior parte delas hoje se destina ao público jovem. Então, nós vemos cada vez mais jovens azarados, corajosos e criativos enfrentando obstáculos terríveis, de forma a diminuir a injustiça presente no mundo. Nem tão ficcional assim, no final das contas. 

http://onemovieadaywithamelie.blogspot.com.br/2015/07/dat-121-maze-runner-july-8.html

Maze Runner: Correr ou Morrer (The Maze Runner). Dirigido por  Wess Ball. 
Com: Dulan O'Brien, Kaya Scodelario, Will Poulter. Roteiro: Noah Oppenheim
et al. a partir do livro de James Dashner. EUA, 2014, 113 min., Dolby/Dolby 
Digital/Datasat/Dolby Atmos/Auro 11.1, Color (DVD). 



14 de ago de 2015

Day 120: Divertida Mente (7 de julho)

Mês passado, eu viu uma entrevista em que Amy Poehler discutia o tema principal da nova animação da Pixar/Disney, Divertida Mente. De acordo com a atriz, o filme discute como todos os sentimentos são uma parte nossa; assim, deveríamos reconhecê-los todos, mesmo que seja algo difícil de assumir. Eu imediatamente fiquei interessada, porque eu penso - e sinto - da mesma forma. 

Em torno de mim vejo pessoas fazendo careta para a tristeza, a irritação, para a raiva de outros. Especialmente a tristeza, como se ela fosse uma doença, uma fraqueza. É senso comum que devemos lutar contra sentimentos não aceitos socialmente ou mesmo por nós mesmos, indivíduos. Nós podemos nos confrontar com a culpa, o desespero, a solidão enquanto lidamos com os sentimentos mais difíceis em nós. Hoje no cinema, no entanto, pensei como o grupo de pessoas que tentaram o suicídio, no filme de ontem, Clube dos Suicidas, seria significativamente menor se fosse um costume socialmente difundido lidar com o que realmente sentimos no momento, encarando o sentimento de frente em vez de virar as costas para ele, fazendo de conta que não é conosco. 

Algo que pude perceber ao longo de anos e aos de enfrentamento, é que quando aceitamos o que sentimos de fato, finalmente chegamos a uma solução - ou pelo menos ficamos mais em paz conosco, mesmo que a situação não se resolva. O coração fica, de qualquer forma, mais tranquilo quando paramos de lutar contra nós mesmos. Brigar com os nossos sentimentos é um modo seguro de afundar cada vez mais no que justamente tentamos evitar. É estranho, mas parece bastante real par amim. E talvez também o seja para os realizadores de Divertida Mente. 

Tristeza é uma parte indesejada da personagem principal aqui. Ela é um sentimento que não se adequa aos outros, especialmente à Alegria, tão bombada e esperançosa todo o tempo. A tristeza não é realmente reconhecida pelos outros sentimentos, e é sempre mantida à parte. Mas ela está ali, uma parte de Riley. Uma parte preciosa, aliás. O que nós iremos perceber ao longo do filme é que ela guarda consigo as respostas para algumas das mudanças mais difíceis na vida da garota de que fazem parte. 

Riley tem onze anos, quase doze. Minha sobrinha, ao meu lado no cinema, tem a mesma idade. Eu consegui identificar várias similaridades entre as duas meninas, a da tela e a que estava sentada perto de mim, tanto que me peguei sorrindo em vários momentos. A perda de algumas das "Ilhas de Personalidade" no processo transformação é de cortar o coração, mas retrata de forma muito querida o que representa crescer. Eu estou testemunhando as mesmas mudanças na minha sobrinha querida e inteligente, e todo esse processo é incrível e melancólico ao mesmo tempo.  

Ao final, eu fiquei feliz em perceber que a minha Ilha da Bobeira se encontra intacta ainda, com certeza :)

Divertida MEnte (Inside Out)Dirigido por Pete Docter, Ronaldo Del Carmen. 
Com: Amy Poehler, Bill Hader, Lewis Black (na versão original em inglês). Roteiro: 
Pete Docter et al. EUA, 2015,  94 min., Dolby Digital/Datasata/Dolby Atmos,
 Color/Animação (Cinema).









Day 119: Clube dos Suicidas (6 de julho)

Clube dos Suicidas (péssima tradução para On the Edge) é uma produção irlandesa de 2001 dirigida por John Carney, um cineasta querido (o mesmo de Apenas uma vez Mesmo se Nada Der Certo - eu gosto muito de ambos). Não sei como esse filme passou despercebido por mim durante tanto tempo. 

E que filme. Meu coração ainda não voltou a caber no meu peito, mesmo depois dos créditos finais. 

Ele é tão gentil, bonito, de cortar o coração, triste, cheio de vida... Eu me apaixonei completamente. O sempre genial Cillian Murphy tem participação fundamental em como esse filme é bom, ele está incrível aqui. Todo o elenco está, na verdade - Stephen Rea está bastante consistente também. Durante todo o filme, eu não podia acreditar como tinha sorte de haver chegado a esse filme finalmente. 

Após os créditos finais, eu contei para uma amiga que havia assistido a um filme com Cillian Murphy e que ele estava realmente incrível - ela é uma grande fã. Ela me perguntou sobre a história: é sobre suicídio, eu respondi (para encurtar a história, porque na verdade ela é sobretudo sobre as pessoas em si). Ela ficou um pouco desapontada. A questão é que temas difíceis são perfeitos para os filmes. Arte é um lugar apropriado para se discutir temas que são tabus sociais. Para mim, o cinema se destaca como esse lugar ideal para o debate sobre a vida e suas questões mais complicadas. 

Assim sendo, não deixe que o tema desse filme o mantenha longe dele. Trata-se de John Carney, no final das contas. Seus personagens são complexos, intensos, fofos, amados, fortes, tristes, com muitas camadas. Seus filmes não são grandiosos, mas suas histórias têm bastante profundidade, no seu modo simples de contá-las. Havia uma imensa tristeza grande em mim, mas mesmo assim um encantamento me envolveu. E se às vezes Cillian Murphy parece exagerado para mim, em On the Edge ele é a alma e o coração que une essa história sincera sobre estar perdido de tal forma que não se consegue encontrar um lugar próprio no âmbito de uma tristeza avassaladora. 

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Esses dois são inacreditavelmente geniais juntos em cena. Era como se a
tela pudesse explodir a qualquer momento. .
Clube dos Suicidas (On the Edge)Dirigido por John Carney. Com: 
 Cillian 
Murphy, Tricia Verssey, Martin Carney, Stephen Rea.  Roteiro: Daniel 
James, John Carney. Irlanda, 2001,  85 min., DTD/Dolby Digital, Color (DVD).







Day 118: O Melhor de MIm (5 de julho)

Depois de um dia exaustivo, tudo o que eu queria era ver um filme que não fosse de fato muito bom. De forma alguma eu seria digna de uma história inteligente. Então, eu recorri ao Netflix para encontrar uma produção aparentemente inofensiva. 

Netflix e eu, nós estamos construindo um relacionamento sobrenatural. É assustador como meus pedidos são atendidos toda vez.  

Eu somente soube que O Melhor de Mim (The Best of Me) é uma adaptação de Nicholas Sparks na sequência de abertura do filme. Eu me preocupei um pouco, talvez eu tivesse ido muito longe no meu desejo por um filme mais simples, mas segui adiante mesmo assim. E pela primeira hora, o filme foi uma boa surpresa. Os elementos usuais estavam ali: o presente confrontado comum passado perturbador, dois amantes impossíveis, um banco de jardim perto de um lago... Todos bastante familiares numa história de Sparks. 

Mas apesar desses estereótipos, a primeira metade do filme tem um tom mais sombrio que chama a atenção. Os quatro atores principais são consistentes em seus personagens, mesmo que um Dawson mais novo seja 5 cm mais alto que sua versão 20 anos mais velha. Ao menos Amanda,  seu par romântico, mantém sua altura ao envelhecer. Parece bobo, mas realmente me incomoda quando não há cuidado com esse tipo de coerência em produções que apresentam personagens em diferentes épocas de suas vidas. Então, essa preocupação parece uma bobagem, mas mesmo que Luke Bracey seja bom ator aqui, ele e James Marsden são bastante diferentes, e isso acaba se interpor na história a meu ver. Mas a narrativa é interessante nessa primeira parte do filme, e eu estava curiosa para saber o que aconteceria à frente. 

Tome cuidado com o que deseja. 

A ruína veio por fim, e eu finalmente pude reconhecer Sparks nessa história. O complicado e quieto Dawson e a extrovertida e forte Amanda acabaram por se resumir a um monte de lágrimas e cafonice sem fim, transformando-se totalmente em outros personagens até. O final é tão "eu não consigo acreditar" que toda a conexão entre Amanda e Dawson se transforma em nada. Foi absolutamente excessivo. Se o filme houvesse assumir dois tons mais abaixo, essa história teria sido bastante bonita. 

Depois de um suspense de roer as unhas em torno simplesmente de um homem, no seu carro, à volta com o peso de suas decisões, eu não pude deixar de pensar como intrigas sem fim e personagens malvados não são realmente tão fundamentais para se contar uma história de amor que encontra nada mais que obstáculos. Ok, circunstâncias tendem a se interpor no nosso caminho, a vida acontece independente de nossa vontade, mas essa história foi conduzida de forma tão sensacionalista que se torna digna de um tablóide. 




O Melhor de Mim (The Best of Me)Dirigido por Michael Hoffman. Com:
James Marsden, Michelle Monaghan, Luke Bracey, Liana Liberato. Roteiro: 
J. MIlls Goodloe, Will Fetters a partir do livro de Nicholas Sparks. EUA, 
2014, 114 min., Dolby Digital, Color (Netflix).

PS: Fragmento: Sense8, temporada 1, episódio 9 (de novo :).

PPS: Há 3 ou 4 anos, durante o natal eu tenho relido Dash & Lily's Book of Dares - ele começa em 21 de dezembro e segue até 1 de janeiro. O filme de hoje me lembrou de um diálogo divertido no livro de David Levithan e Rachel Cohn, página 185 (Eu gosto muito de todas as três colaborações desses dois autores): 

(Narrativa do ponto de vista de Lily):
Nós permanecemos de pé na entrada de uma espécie de almoxarifado no porão da Strand.
"Você quer adivinhar o que tem aqui dentro?", perguntei a Dash.
"Acho que eu já sei o que é. Há uma nova leva de cadernos vermelhos aqui, e você quer que nós os utilizemos para escrever pistas relativas ao trabalho de, vejamos, Nicholas Sparks."
"Quem?", eu perguntei. Não mais poetas infelizes, eu implorei em pensamento. Eu não conseguiria acompanhar.
"Você não sabe quem é Nicholas Sparks?", Dash perguntou.
Balancei minha cabeça.
"Então  jamais descubra, por favor", ele disse.

(Lily's voice):
We stood at the door to a special storage room in the basement of the Strand.
 “Do you want to guess what’s in here?” I asked Dash.
 “I think I’ve got it figured out already. There’s a new supply of red notebooks in there, and you want us to fill them in with clues about the works of, say, Nicholas Sparks.”
 “Who?” I asked. Please, no more broody poets. I couldn’t keep up.
 “You don’t know who Nicholas Sparks is?” Dash asked.
 I shook my head.
 “Please don’t ever find out,” he said.

13 de ago de 2015

Day 117: Enquanto Somos Jovens (4 de julho)

Espanta-me um pouco como ainda há muitas história que preferem ressaltar as (estereotipadas) diferenças quando se referem a relações humanas. Talvez eu pudesse explicar de uma forma melhor: ao discutir a conexão entre as pessoas, é comum que se enfatizem as diferenças, o que as separa, e não o que as permitiu o seu encontro. Claro, nem todas as histórias são sobre conexão; algumas focam justamente o abismo. Mas penso que não era o caso aqui. 

Talvez, no final das contas, não haja uma melhor forma de falar a respeito. 

Enquanto Éramos Jovens (While We're Young) apresenta um casal por volta dos 40 anos que inicia uma estreita amizade com um casal de 25 anos.  Os homens são documentaristas, um mais experiente, o outro tentando produzir seu filme. Ele possuem várias coisas em comum. No entanto, o foco aqui não é sua conecção, mas as razões ocultas em cada um deles por detrás dessa amizade. 

Meus amigos não se encaixam em uma fórmula. Eles podem ser 25 anos mais novos ou 40 anos mais velhos que eu, isso realmente não importa. A pessoa é importante. Minha conecção com eles é importante. Claro, há diferenças em cada relacionamento pela idade, e, ao reconhecer esse fator, o resto é só amor. Eles são os melhores amigos que alguém poderia desejar, e isso é o suficiente. Então, se você me disser que a única razão para pessoas diferentes se aproximarem é por quererem algo, seu argumento não encontrará ressonância em mim.  

O filme apresenta dois motivos principais para os dois casais se tornarem amigos: um, como dito, é que eles sejam um caminho para alcançar um objetivo... relacionamentos como uma forma de lucrar, conseguir algo,  é bastante comum hoje (e acho que sempre). A outra razão é como é possível projetar as frustrações e desejos próprios em outrem. Outra forma bastante usual de relacionamento. Ambas acabam por cair no vazio e não se caracterizam como uma conecção humana ao final. São apenas uma forma de conseguir o que se quer. 

Não sou capaz de apontar qual o foco nesse filme. Como sabemos, a infame intenção de um autor não pode ser o centro de uma discussão sobre uma história. Trata-se de algo de difícil alcance, algo de que nem mesmo o autor pode ter consciência. E mesmo que o autor tivesse esse controle, sua intenção não seria o ponto aqui. O destaque aqui, a meu ver, é como as relações humanas caem no vazio aqui. Os personagens não são pessoas, mas apenas meios para defender um ponto de vista. Essa é uma armadilha bastante sedutora em uma história. Mas ainda assim é uma pena que um bom argumento tenha se perdido em meio  a tantas ideias confusas. Eu já disse antes: defender uma tese em uma história não é uma boa forma de construir uma narrativa. 

Josh e Cordelia não se encaixam mais em nenhum grupo. A maioria dos seus amigos têm crianças, eles não. Esse é um aspecto da sua inadequação, mas há muitos outros. E eles não se adequam aos seu novos jovens amigos por conta da idade - isso é o que o filme defende, e eu enfaticamente discordo. Esse argumento por si só não é suficiente para mim. Assim, o que se segue é ainda pior, de forma tal que eu sugeriria aos realizadores uma observação mais atenta das pessoas e da vida na próxima  vez. 

Desculpe-me se estou sendo excessivamente crítica, mas de fato me aborrece muito o desenvolvimento apressado de uma boa história. Trata-se aqui de cineastas e atores experientes  - eles não são perfeitos, mas deveriam saber como evitar tantos clichês (Joe me lembrou, antes de eu entrar no cinema, de ser gentil com esse filme, porque é um milagre levar uma história para as telas, mas eu acho que ainda não conseguir alcançar esse tipo de gentileza ainda). 

Um aspecto me conquistou, no entanto: as citações a respeito de teoria do cinema e documentários. Algumas delas são tão legais, eu não entendo como esse filme não conseguiu se libertar da parte estereotipada. O roteiro caminha na direção contrária do que a história parece querer contar. Um desperdício. É algo que acontece, no entanto, é um erro comum. Contar uma história sem cair na tentação de tantas armadilhas é de fato difícil, e apenas contadores de história mais capazes conseguem fazê-lo. Nós temos sorte de haver tantos deles ainda por aí. 

Um adendo: ontem, eu estava um pouco brava com esse filme... Acho que deu para perceber, certo: :) Hoje, eu lembrei de algo que também chamou minha atenção: em uma determinada cena, a ênfase em como os mais jovens buscam tecnologias analógicas com mais frequências - máquinas de escrever, fitas cassete, discos em vinil - ao mesmo tempo em que lidam facilmente com as tecnologias digitais, enquatno a minha geração parte de tecnologias mais antigas cada vez  mais na direção do que é digital. Essa cena é curiosa, certamente um tanto estereotipada também, mas um contraste interessante (pelo menos assim é até o final, quando surge um bebê lidando com um celular, e aí o clichê assume de fato a direção do filme). 

http://onemovieadaywithamelie.blogspot.com.br/2015/07/day-117-while-were-young-july-4.html



Enquanto Somos Jovens (While We're young)Dirigido e escrito por Noah
Baumbach. Com: Naomi Watts, Ben Stiller, Adam Driver, Amanda 
Seyfried. EUA, 2014, 97 min., Dolby Digital, Color (Cinema).




PS: Eu lembrei bastante de Distante nós Vamos no caminho para casa, depois do filme.   As duas produções trazem casais que não se adequam ao seu ambiente. No caso de Distante, o casal especificamente considera que não serão capazes de criar o filho sozinho, então eles procuram familiares e amigos numa tentativa de construir um bom ambiente para o filho ainda não nascido. É tão querido, tão cativante... nós conseguimos nos identificar com eles. Mas, importante repetir, eles são pessoas... Cordelia e Josh são apenas estereótipos... não há muito o que falar deles, então (Acho que estou brava ainda... ). 

PPS: Fragmento: Locke, novamente... eu ainda estava dentro daquele carro com Ivan. 

6 de ago de 2015

Dia 116: Locke (3 de julho)

Joe, meu querido amigo cineasta, indicou-me Locke na quinta-feira, e eu não pude esperar muito para chegar ao filme. De acordo com Joe, tratava-se de uma história cheia de suspense construída com apenas um personagem em seu carro durante uma viagem. O ponto era que, apesar do cenário restrito, com apenas uma pessoa em cena, ele não conseguiu desgrudar os olhos da tela até o final. Não à toa eu fiquei tão curiosa. 

Meu coração batia tão forte durante os 85 minutos do filme que eu pensei que ele fosse explodir antes do final, juntamente com Ivan Locke, magistralmente interpretado por Tom Hardy. O curioso é que o mais enervante nessa história não é nada mais nada menos que os problemas por que passa um homem comum na hora de decidir qual a melhor maneira de agir diante de uma encruzilhada complicada. Não há grandes explosões, ataques alienígenas, super poderes, espíritos do mal, bandidos malvados ou nada do tipo. É somente aquele homem e a vida, e como ela parece nos enclausurar em alguns momentos. 

Um homem sozinho com suas próprias escolhas encara o mundo do confinamento do seu carro sem outra opção (que ele mesmo escolheu) senão seguir em frente até seu destino, mesmo que ele seja terrivelmente incerto.  A respeito, eu cheguei a me ressentir um pouco das tomadas amplas da autoestrada, que nos tiram da claustrofobia do interior do carro. Eu entendo essa alternativa como uma forma de tornar o filme suportável, diminuindo um pouco a tensão estarrecedora. Mas eu preferiria o extremo de permanecer com Locke na solidão claustrofóbica de não haver outra saída senão aquela que põe tudo a perder. 

Os vislumbres do mundo externo vistos de dentro do carro, no entanto, são outra coisa: como ocorre com o motorista, algumas coisas chamam a nossa atenção, outras passam despercebidas. Essa é uma das sacadas mais inteligentes do filme, e ainda há muitas outras. 

Há muito tempo, alguém me disse que nós podemos lidar com a nossa bagagem familiar de duas formas: uma é seguir o script de família; outra, é negá-lo persistentemente. No final das contas, ambos os modos são a mesma coisa, porque passamos a vida presos em algo do qual buscamos desesperadamente escapar. A luta de Locke por fazer o que considera correto é uma maneira de ir contra o padrão familiar, e assim sendo ele somente consegue se afunda mais profundamente no que quer justamente evitar. 

Mesmo assim, eu concordo plenamente com a escolha dele. Não podemos ser nada mais do que verdadeiros a nós mesmos, é a única forma de ser e viver, eu acho. A ironia aqui é que, ao agir como acha mais correto, ele parece perder tudo na vida. Ele considera ter uma vida perfeita, mas o que suas decisões irão mostrar ao final é que se tratava na verdade de uma armadilha, e que as mudanças, apesar de assustadoras e incertas, são necessárias, permitindo que Locke encontre a si mesmo. Ou assim eu espero. 

Eu tinha tanto medo por ele, meu coração quase explodiu. Tom Hardy está incrivelmente bom aqui, e não somos capazes de sair do seu lado por um minuto. Seu Ivan Locke é forte, determinado, tão seguro, tão frágil, machucado, sozinho... Ele consegue falar com os outros com segurança e calma, enquanto seu mundo quebra em mil pedaços. E, ao fazê-lo, ele está sempre só, mesmo que rodeado por pessoas que parecem se importar com ele. O que ele descobre, por fim, é que alguns deles não se importam tanto assim. Já vão tarde, eu diria a ele. Mas é dolorido, eu sei. E, ao final, o que permanece ao seu lado é o que importa realmente.

Com essa percepção, nosso coração finalmente pode voltar ao seu ritmo normal, podemos também deixar o carro de Locke calmamente, certos de que tudo correrá bem para ele, mesmo com a previsão de tempos mais difíceis por um tempo. 

http://onemovieadaywithamelie.blogspot.com/2015/07/day-116-locke-july-3.html

Locke. Dirigido e escrito por Steven Knight. Com: Tom Hardy, Olivia
Colman, Ruth Wilson 
(Mas não era só uma pessoa no carro: Então... :).
Inglaterra/EUA, 2013, 85 min., Datasat/Dolby Digital, Color (Netflix).


PS: Sempre há cineastas tentando contar uma história de forma mais peculiar a fim de captar os aspectos mais humanos de seus personagens e narrativas. Alguns são puramente estéticos, outros mais simples - ambos tentam, porém, se aproximar da vida. Locke traz essa característica narrativa peculiar. Outro filme que me lembra essa maneira de contar a história é Chuva (lluvia, 2001), filmado em sua maior parte dentro de um carro, como dois personagens que se conhecem em meio a um engarrafamento. 

PPS: Nos comentários abaixo, Joe se refere a entrevistas presentes no imdb.com com Steven Knight e Tom Hardy sobre o processo de construção dessa história. Apresento o link para as entrevistas a seguir, ressaltando como Tom Hardy está totalmente diferente de Locke, sem algo que somente bons atores conseguem alcançar (ok, já sei, e  uma boa maquiagem... mas não é o caso aqui). 

http://www.imdb.com/video/imdb/vi3771116825?ref_=ttvi_vi_imdb_5

http://www.imdb.com/video/imdb/vi3787894041?ref_=ttvi_vi_imdb_3



Dia 115: O Exterminador do Furturo: Gênesis (2 de julho)

Dizer que eu estava ansiosa para ver O Exterminador do Futuro: Gênesis (Terminator Genesys) seria pouco, especialmente depois de assistir aos primeiros quatro filmes da franquia na semana passada. Essa foi uma boa opção, no final das contas, apesar de ter aumentado as minhas expectativas para esse filme.  

Penso que um fã do Exterminador vai acabar com um grande sorriso no rosto ao início desse filme. Eu estava assim, sorrindo como uma boba, mesmo na ausência de um dos dois "What a hell", uma das mais evocativas partes do primeiro filme para mim, por mais estranho que pareça. Bom, de volta ao começo: essa parte é bastante boa, mesmo que o filme como um todo seja menos do que eu esperava. No entanto, do mesmo modo que seus predecessores, eu gostei do filme, uma boa diversão - inteligente, engraçado, evocativo. 

Mas a questão é que eu gosto muito dessa série, acabei por curtir todos os filmes, mesmo o terceiro, considerado o mais fraco, e penso que eu vou gostar dos próximos dois já anunciados. Todas as referências de costume estão ali - frases como "I'll be Back", "Come with me if you want to live" são parte dessa franquia, assim como alguns fatos, personagens, trama. O filme é fiel à história e ao seu desenrolar nesses trinta anos. Um exemplo disso é como até mesmo a confusão sobre o tempo e os diferentes personagens é incorporada à trama, o que eu achei uma sacada inteligente. Os elementos que compõem essa série são reconhecidos aqui, além da apresentação de novas questões. 

Minha maior preocupação aqui foi a escalação de Jay Courtney como Kyle Reese, um personagem importante e querido na história do Exterminador. Ele de fato confere força a Reese, mas deixa a desejar nos aspectos mais cativantes do personagem. Jay e Emma Clarke possuem uma boa dinâmica juntos (o que é fundamental a esse filme), e o trio composto por ambos e Schwarzenegger convence e é bem dirigido, assim como ocorre com o filme como um todo. Não é perfeito, nem tão bom como os dois primeiros, porém. Eu estava esperando uma certa perfeição aqui, então eu claramente me desapontei em vários momentos. Mas mesmo assim eu gostei do filme, e o assistiria novamente pela reconstrução do set de 1984 - e também pela super participação especial inesperada (você deve saber de quem se trata, mas eu não tinha ideia, e acabou sendo uma surpresa muito feliz :).

http://onemovieadaywithamelie.blogspot.com/2015/07/day-115-terminator-genisys-july-2.html


O Exterminador do Futuro: Gênesis (Terminator Genesys)Dirigido por Alan
 Taylor. Com: Arnold Schwaznegger, Emma Clarke, Jay Courtney, Jason Clarke.
Roteiro: Laeta Kalogridis,  Patrick Lussier a partir dos personagens criados por 
James Cameron.  EUA, 2015, 126 min., Dolby Digital/Datasat/Dolby Atmos, Color (CInema).  





Dia 114: Inquietos (1º de julho)

Nos últimos quase quatro meses, houve a criação, por acado, de um sistema que tem funcionado lindamente aqui, e que eu espero continue dessa forma até o dia 365.

Quando eu me vejo diante da ausência total de vontade de assistir a um filme, ou mesmo de escolher algum para o dia, eu peço - a quem eu não sei, talvez aos Deuses do Cinema - por um bom filme, que faça sentido naquele momento. Essa solicitação deu certo já por cinco ou seis vezes, e neste dia esse sistema provou sua excelência. 

O primeiro que vi anunciado quando abri o Netflix foi Inquietos (Restless), do qual nunca havia ouvido falar antes. Ele parecia ser bom, então escolhi assistir a esse filme de Gus Van Sant de 2011. Aconteceu, então, que a surpresa e a alegria causada por filmes num dia em que eu não estava disposta a estar com eles encontrava-se ali, mas amplificada por um zilhão.

Inquietos é encantado. E encantador. É isso. Ele possui a mesma fantasia sonhadora de uma animação, ou daquele livro que carregamos perto do coração por toda a vida.  É uma história sem laços com ironia, sarcasmo, críticas. Na verdade, o filme se ocupa principalmente em narrar um conto doce e sincero sobre perda e amor por meio de cores delicadas, mas mesmo assim bastante fortes. Nós somos constantemente surpreendidos pelos dois personagens principais, especialmente Enoch, numa atuação que domina o filme, na maneira como apresentada por Henry Hopper. Suas expressões silenciosas carregam muito consigo, tanto que se torna difícil descrever. 

Tudo nesse filme artístico, com ecos da Nouvelle Vague, é composto de forma delicada para contar de vidas que conhecem dor, perda e tristeza. Os personagens joviais, encantadores e melancólicos, a belíssima fotografia, a incrível trilha sonora... Desse modo, como costuma ocorrer nesse tipo de filme, há muita dor por detrás deses personagens silenciosos, que deixam transparecer, no entanto, esperança e maneiras de lidar com os os aspectos mais difíceis da vida. 

Ao final, em lágrimas, mas mesmo assim como o coração flutuando, eu estava absolutamente apaixonada. E agradecida por novamente ter tido toda essa sorte. 

http://onemovieadaywithamelie.blogspot.com/2015/07/day-114-restless-july-1st.html





Inquietos (Restless). Dirigido por Gus Van Sant. Com: Henry Hopper, 
Mia Wasikowska, Riô Kase. Roteiro: Jason Lew. EUA, 2011, 91 min., 
Dolby Digital/DTS/SDDS, Color (Netlix).


PS: A primeira música nesse filme me colocou diretamente dentro dele; a última, disse adeus de uma forma bastante comovente. A primeira eu não vou contar qual foi - você provavelmente a conhece e será, então, uma boa surpresa e uma forma querida de entrar na história. Mas eu preciso falar sobre a última, de Nico: ela é The Fairest of The Seasons, bela e tocante e triste, e uma parte do igualmente incrível Os Excêntricos Tenembaums (The Royal Tenenbaums), de Wes Anderson. Eu já me referi aqui a suas trilhas sonoras geniais, e esta que apresente permanece conosco por muito tempo após os créditos finais.




PPS: Desde o início deste desafio, eu vi três filmes com Mia Wasikowska here - O Duplo, Amantes Eternos e Inquietos. Felizmente, ela prece estar em ascensão, e sua presença em um filme tem sido sempre impactante. 






Dia 113: Cidadão do Ano (30 de junho)

Há tempos não via um filme como O Cidadão do Ano (Kraftidioten), e com certeza eu não esperava nada assim quanto entrei no cinema.  

Muitos dos filmes presentes neste desafio nos últimos meses trazem a violência como tema, mas não da forma como apresentada aqui. Esse tipo de violência perturbadora, ácida, explícita, com momentos cômicos que traz um contínuo sentimento de incredulidade eu não encontrava no cinema há um bom tempo. 

Esse filme me lembrou um diálogo presente em na série da Netflix O Demoliidor (Daredevil). Matt Murdock questionou um padre sobre como algumas pessoas são maléficas, diabólicas. O debate entre os dois era que de uma pessoa de má índole se esperariam más ações, mas e se um indivíduo bom agisse dessa forma maligna?  Ele contaminaria a água do poço de toda a comunidade, responde o padre,  numa alusão á passagem da Bíblia. 

Pode-se dizer que o mesmo ocorreu no filme de hoje, mas o poço não se tornou infectado, talvez muito ao contrário. A cada morte, anunciada de forma peculiar (e que acaba por se tornar engraçada pela repetição), questionamos cada vez mais sobre se há de fato uma distinção tão exata entre o mal e o bem em um cenário de tanta violência. 

De acordo com o filme, sim, há. E, ao mesmo tempo, não, não há distinção alguma. A cena final se refere a essa contradição, sobre como a diferenciação entre o bem e o mal pode se diluir em alguns aspetos, mesmo que permaneça bastante distinguível em outros.  

O título em português se refere a O Cidadão do Ano. Um homem que é reconhecido pela sua comunidade como uma força constante. Imediatamente após receber essa condecoração, esse mesmo homem se vê diante da dor de uma perda imensurável, e é de fato sua força e constância que o leva a agir de forma que poderia contradizer o prêmio de cidadão exemplar. Mas nós deixamos o cinema pensando em como ele, de fato, agiu de acordo com a homenagem recebida, e não contrariamente como poderia parecer de início. Ambivalente e complexo, como os debates sobre a violência costumam ser, especialmente nas produções cinematográficas dos países nórdicos. 

http://onemovieadaywithamelie.blogspot.com/2015/07/day-113-in-order-of-disappearance-june30.html

O Cidadão do Ano (Kraftidioten). Dirigido por Hans Petter Moland. Com:
Stellan Skargard, Bruno Ganz, Pal Sverre Hagen (que está tão incrível aqui
como em DeUsynlige, emobra mais intenso e assustador). Roteiro: Kim Fupz 
Aakeson. Noruega/Suécia, 2014, 116 min., Color (Cinema).


Dia 112: Terapia do Sexo (29 de junho)

Esse poster não reflete em nada o filme....
Em um dos diálogos de Terapia do Sexo (Thanks for Sharing), um dos personagens confronta outro a respeito de ser mais aberto sobre o seu vício em sexo. Ela sustenta que ela consegue ser clara e explícita sobre o câncer de mama que teve há um tempo desde o primeiro momento em um relacionamento, então por que ele não poderia fazer o mesmo? A resposta: uma doença acarreta simpatia; vícios recebem jugamentos.  

Talvez justamente por essa razão eu não tenha ouvido falar desse filme consistente e honesto antes. Vício em sexo pode levar a julgamentos ainda mais cínicos, eu creio - podemos perceber o quanto por meio das reações mais comuns a um filme a respeito desse tema.  Não deveria ser assim, no entanto, porque, de acordo com uma das primeiras falas do filme, o vício em sexo é como se um viciado em crack em recuperação andasse com o cachimbo colado ao seu corpo.  O personagem que assim afirma não está apresentando uma desculpa com sua fala. É apenas seu modo de explicar os aspectos mais complexos desse vício, o que funciona de forma bela nessa historia sensível sobre as muitas faces do vício por meio de personagens queridos e fortes - apesar de nossa rejeição inicial a alguns deles (o que denota o já implícito preconceito ao lidar com o tema). É de certa forma triste perceber o quanto nossas ideias podem ser preconcebidas em relação às dificuldades e dor de outrem. 

Ao esbarrar com o filme na Net, eu fiquei intrigada de como eu não havia notado essa produção com Tim Robbins, Mark Ruffallo, Pink e Gwyneth Paltrow. O elenco, assim como a história, é consistente. Josh Gad, que eu nunca havia visto em um papel tão bom, é surpreendente - nós o desprezamos e amamos com a mesma intensidade. Juntamente com a excelente atuação, podemos conhecer melhor os variados aspectos de um vício e alguns de seus padrões. Podemos também perceber como cuidadosa foi a elaboração dessa história, que conseguiu evitar um tom professoral de uma tese. O filme carrega em si muitas lições importantes e contundentes, mas o faz por meio de personagens que soam tão reais, tão próximos a nós, que não nos resta outra alternativa senão nos importarmos de verdade com eles, entendendo-os e respeitando a dificuldade da luta que eles têm à sua frente. 

Percebemos, ainda, como muitos aspectos da nossa vida, apesar de não se tratarem de um vício em si, caminham nessa direção com bastante facilidade, refletindo também a nossa dificuldade em lidar com a vida em alguns momentos (todos os dias...).

http://onemovieadaywithamelie.blogspot.com/2015/06/day-112-thanks-for-sharin-june-29.html

Não consegui encontrar nenhuma foto com os quatro personagens centrais que
refletisse o filme para mim.. Essa foto é muito feliz, rs.
Terapia do Sexo (Thanks for Sharing)Dirigido por Stuart Blumbeg. Com: 
Mark Ruffalo, Tim Roboins, Josh Gad, Pink. Roteiro: Stuart Blumberg, Matt 
Winston. EUA, 2012, 112 min., Dolby Digital, Color (Net). 

PS: Algumas comparaçoes com Shame foram inevitável aqui. Apesar de não explodir o nosso coração e alma como faz o filme de Steve McQueen, este aqui também consegue ser bastante intenso, deixando-nos com sentimentos contraditórios, além de um senso de esperança no sentido de conseguir superar nossos aspectos mais desafiadores.

PPS: Ao responder sobre o que ele normalmente come durante um filme, Ty Burrell disse ser especialmente monótono em sua escolha usual, uma xícara de chá. Eu estava vendo essa reportante antes do filme de hoje enquanto esperava o meu chá, companhia para esse filme, ficar pronto :)

2 de ago de 2015

Dia 111: Orgulho e Preconceito (28 de junho)

Outro dia em que me vi sem vontade de ver filmes... Assim, sem querer arriscar algo novo, eu me coloquei em frente à TV esperando por um milagre... apenas para encontrar uma das história que mais amo na vida. Eu devo ter uns três ou quatro DVD's desse filme, mas não consegui sair do sofá quando eu vi que ele estava iniciando na TV. Então eu decidi por uma reprise neste dia, porque poucos filmes são tão perfeitos para mim quanto Orgulho e Preconceito (Pride & Prejudice), a versão de 2005 para o livro de Jane Austen.

Trata-se da estreia no cinema do diretor Joe Wright - ele começou muito bem por sinal. Há tantos detalhes incríveis, uma imensa atenção para pequenos aspectos dessa história que está no mundo há mais de 200 anos, e que habita o imaginário de seus leitores por tantas gerações. A primeira cena, com Elizabeth Bennet lendo o final de sua própria história, com um sorriso de reconhecimento em sua face, fechando carinhosamente o livro que tem nas mãos, nunca deixa de me encantar.  Dessa maneira, um filme com quase duas horas assume a duração de cinco minutes apenas, para mim. Ele chega ao final cedo demais, deixando-me como única opção assisti-lo repetidas e repetidas vezes. 

Adaptações de livros para o cinema, especialmente de clássicos, são complicadas. Dois meios diferentes de contar uma história não permitem a chamada fidelidade de fatos. A forma de narrar influencia a história em si, sem dúvida. O que eu penso ser importante numa adaptação é manter-se fiel à história e aos personagens por que nos apaixonamos em palavras. Mas para assim fazer, algumas mudanças são necessárias. É irônico que é justamente essa transformação que possibilita contar a mesma história de diferentes modos.  

Um bom exemplo a respeito - e um que me fez prestar mais atenção às adaptações literárias no cinema - é a cena da declaração de Darcy a Elizabeth no filme de Joe Wright: os personagens têm uma briga intensa e emocional, um confronto que, no livro, é narrado da distância usual assumida por Austen - e ainda assim a cena é bastante intensa. O leitor precisa transcender, de certa forma, as palavras para mergulhar no que está sendo de fato contado ali. Na elogiada adaptação da  BBC, em que a proposta foi contar o livro em sua literalidade, a cena acaba por perder em intensidade e paixão, apesar da produção impecável e das atuações excelentes. Joe Wright, de outro lado, optou por mudar o cenário em que ocorre a cena de forma a alcançar a explosão de emoções presente nela. O resultado foi a perfeição, a meu ver. Podemos, pelas imagens de Wright, perceber a ligação entre esse dois personagens orgulhosos e fortes, assim como o que significa para eles a percepção do que os une. Essa cena nunca fica ultrapassada para mim. 

Como ocorre com tantas outras nesse filme: a cena do espelho é genial... as longas tomadas sem cortes no baile, todas as mulheres de branco... Darcy flexionando a mão após ajudar Elizabeth a subir na carruagem... A cena nas montanhas... A câmera que percorre os ambiente privados como se deles fizesse parte... Há tantas e tantas, que listar todas seria contar o filme inteiro :)

Juntamente com tantas imagens incríveis, encontra-se a trilha sonora surreal mente linda composta por Dario Marianelli. Ela também narra a história em cada cena, e é uma das coisas mais belas que já vi no cinema. Trata-se de outro aspecto nesse filme que nunca deixa de me encantar.  

A controvérsia sobre a adaptação de romances clássicos para o cinema é ainda maior quando consideramos opiniões que sustentam que tal tarefa é impossível. Gina e Andrew McDonnald, pesquisadores do tema, defendem que: "[a natureza mesma da tradução torna improvável uma 'fidelidade' a Jane Austen, porquanto as características do cinema como espetáculo, comércio, visualidade, idealismo, realismo, velocidade e uma busca por 'relevância' estabelecem distâncias ainda maiores dos textos da autora" (Do original: "[...] the very nature of translation makes “fidelity” to Jane Austen unlikely, while such characteristics of cinema as spectatorship, commercialism, visuality, idealism, realism, velocity, and a perceived need for “relevance” open up even wider distances from her texts.” MACDONALD, Gina; MACDONALD, Andrew F. Jane Austen on screen. Cambridge University Press, 2003, p. 44). De acordo com essa concepção, uma obra literária tem seu lugar historicamente, e nada no mundo poderia mudar esse fato. 

O mais incrível a respeito da arte e da cultura, no entanto, é que ambas não estão acorrentadas às suas origens espaçotemporais. O mundo passa por mudanças, as obras de arte também, assim como o relacionamento entre o que se pode considerar como um ícone e o público. Torna-se inútil na verdade ignorar essa constante mudança. Claro, o mencionado ícone está ali, e procuramos compreender seu lugar no tempo e espaço de origem. Mas atualmente, por exemplo, Jane Austen assumiu tantas diferentes configuradões para seus leitores e admiradores que não há como ignorar todos esses aspectos relativos à presença da sua obra no mundo hoje.  E nem haveria por que, na realidade. 

A adaptação literária para o cinema é uma forma de tradução, e passa pelos mesmos questionamentos e controvérsias. Mas o fato é que o lugar ocupado por uma obra de arte muda ao longo do tempo até mesmo no seu idioma original... o que se pode dizer então em outras línguas e sociedades diferentes da de origem? O que a obra se torna não é falso ou errôneo no que concerne às suas origens... é apenas diferente, como deve ser. 

Joe Wright pode se manter verdadeiro aos ambivalentes aspectos apresentados na obra literária clássica, e eu acredito que ele foi bastante feliz ao contar essa amada história sobre a futilidade das primeiras impressões.  Elizabeth e Darcy são considerados um dos casais literários mais icônicos da história ocidental. Jane Austen não discorreu com detalhes a respeito do que estava reservado aos dois personagens ao final do livro, e o filme de Wright respeita belamente essa opção. O público, no entanto, fica ávido por mais informações, tanto que um final alternativo foi filmado para os Estados Unidos (onde a maior parte das produções costumam não deixar muito à imaginação - o que tem, felizmente, mudado nos últimos anos). Encontramos outros reflexos desse desejo por mais em vários livros que continuam a história ou narram, em ficção, sobre suas influencia nos leitores hoje. Alguns deles eu já li e achei interessantes, mas evito aqueles que apresentam uma sequência - de forma alguma eu pretendo estragar uma história tão preciosa para mim.  

Uma vez um amigo me disse que não iria arriscar assistir à versão para o cinema de Tristão e Isolda porque ele escolheu ser cauteloso com um história importante para ele. Eu fiquei um pouco desconfiada à época sobre essa opção, mas hoje a entendo perfeitamente. E concordo com ele. 

Este é, aliás, um dos aspectos mais difíceis em contar uma história dessa natureza: ela se encontra de tal maneira encravada na imaginação de seus leitores que se torna bastante especia, exigindo cuidados. Joe Wright foi bastante cuidadoso com o que é mais importante na história escrita por Austen, como somente um bom leitor consegue ser. Assim, a meu ver, Wright é o mais cuidadoso e atento dos leitores, apresentando uma história tão querida com delicadeza, precisão, cuidado, intensidade e amor pelo que está narrando, juntamente com uma das escritoras mais apreciadas no mundo. 

Um pensamento de última hora: a versão comentada presente no DVD jé uma aula de cinema e narrativa. Joe Wright enfatiza vários detalhes no filme - como, por exemplo, a empregada que está sempre cantando em cena -, mostrando seu cuidado ao contar a história de Elizabeth e Darcy. Como ele escolheu os cenários, as relações entre os atores, a atenção para inúmeros aspectos, as tomadas sem cortes... Está tudo lá, e é tão incrível quanto o filme em si.

No final, eu fiquei bastante feliz com minha escolha de como terminar um tedioso domingo friorento. 
Orgulho e Preconceito (Pride & Prejudice)Dirigido por Joe Wright. Com: 
Keira Knightley, Matthew MacFadyen (meu coração...), Brenda Blethyn (todo o
elencoé incrível na verdade). Roteiro: Debborahg Moggach  (e Emma Thompson, que 
não aparece nos créditos) a partir do livro de Jane Austen.  França/InglaterraK/
EUA, 2005, 129 min., DTS/Dolby Digital, Color (DVD)


PS: A primeira vez em que li um livro inspirado em Austen (e em Orgulho e Preconceito) foi com um exemplar que comprei num posto de gasolina na Inglaterra. Mr. Darcy and Me soava como algo interessante, e eu resolvei levá-lo comigo na viagem. E ele de fato foi querido, divertido, meio bobo, mas também uma boa reflexão sobre alguns aspectos presentes na influência da obra de Austen no imaginário atual. Escrito por Alexandra Potter, eu o recomendei ou dei de presente para vários amigos. A partir desse primeiro encontro, eu passei a procurar por livros como esse, que apresentam como leitores atuais são influenciados pelos livros e personagens de Austen. Os livros e filmes e séries que continuam a história de Elizabeth e Darcy, no entanto, eu olho com cautela. Um desses é a mini-série para TV Death Comes to Pemberley, que apresenta o casal alguns anos após o fim do livro, e seu envolvimento em um mistério. Parece bom (e um dos atores é o Kevin, então não há muito o que questionar :), eu assisti ao primeiro episódio, mas ainda estou meio receosa, ainda que ele tenha me sido indicado pela sempre genial Samara, sumidade absoluta em séries e filmes e livros <3



PPS: Matthew MacFadyen como Mr. Darcy é demais de bom. "I love you, most ardently" é uma fala que permanece comigo. À época do lançamento do livro, eu o perseguia um pouco, na verdade, e acabei por encontrar boas produções com ele (mesmo que nada como Darcy, claro). Duas delas são: Morte no Funeral (Death at a Funeral, 2007), um dos filmes mais engraçados que já vi (de passar mal de rir, com um humor bastante inteligente), e  Um Refúgio no Passado (In My Father's Den, 2004), uma história arrasadora.

PPPS: Algumas cenas da ficção levam a acontecimentos na chamada vida real. Em ambas as turmas em que fui professora, eu apresentei esse filme. E agora, todas as vezes em que vejo a cena do Darcy "most ardently" é inevitável me lembrar do suspiro sonhador de uma estudante em sala de aula :)