6 de jul de 2015

Dia 55: Um Algúém Apaixonado (3 de maio)

Desde o sensacional Cópia Fiel (Certified Copy, 2010), o cineasta iraniano Abbas Kiarostami se encontra no meu radar, por assim dizer. Eu não vi muitas de suas produções, algo que pretendo remediar neste ano, mas aqueles que já vi tem sido gratas surpresas. 

Procurando por um filme na TV a cabo, eu esbarrei na sua mais recente produção, Um Alguém Apaixonado (Like Someone in Love). Eu comecei a assistir ao filme com grandes expectativas. A questão, no entanto, é que ele é mais sobre as formas como se pode narrar do que a história em si - nesse sentido, é preciso  lembrar que Kiarostami é também um professor na universidade (em Paris), e seus filmes apresentam alguns aspectos relevantes sobre direção e roteiro. Neste em particular, vários aspectos diegéticos - tudo que se relacione ao mundo fictício na narrativa - são deixados sem explicação. Estamos, na condição de espectadores, acostumados a completar alguns dos fatos numa história que não são mostrados: uma pessoa, por exemplo, fala ao telefone, marca uma reunião e, a seguir, nós a vemos no carro se dirigindo ao seu compromisso. Não precisamos ver todo o seu caminho até seu destino para saber o que aconteceu aqui - preencher esse itinerário é parte da nossa educação nas imagens do cinema. 

Kiarostami subverte essa forma clássica de narrar, e conta a história de uma "jovem profissional do sexo" (nas palavras da sinopse no imdb.com), seu namorado e um cliente (um professor de universidade) deixando inexplicados vários fatos da ação que não nos é mostrada. 

O ritmo desse filme é incrivelmente bom. 

Ele é genial desde a primeira cena. Ouvimos a voz de Akiko ao telefone, mas não a vemos. Posteriormente, a câmera tenta alcançar a sua avó, que espera pela neta perto de uma estátua, mas nem nós nem Akiko podemos vê-la claramente. Todos os significados aqui estão presentes não apenas nas expressões dos personagens e nos diálogos, mas em algo que nós nunca seremos capazes de identificar.

Os sons em cena são tão vivo, sentimos como se os estivéssemos vivenciando no nosso próprio ambiente. As cenas no interior de carros (uma marca registrada de Kiarostami) nos levam junto no banco do passageiro. Os personagens são bem apresentados. E assim, com esses elementos, a história é contada de forma peculiar mesmo para o sempre surpreendente cinema. 

Um professor na universidade disse uma vez que o enquandramento é uma questão sobretudo de escolhas entre o que incluir no quadro e o que deixar de fora. Nosso foco está comumente no que é enquadrado tanto pela câmera quanto pela narrativa, mas Kiarostami nos chama a atenção constantemente para o que não podemos vez, mas é parte do seu conto. O curioso é que o close-up como técnica desde o início do cinema tem sido destacado como uma forma de mostrar coisas que normalmente não conseguiríamos perceber. Kiarostami apresenta vários close-ups dos seus personagens nesse filme, mas faz quase que o oposto ao contar sua história. Podemos ver várias coisas, e talvez por conta disso não nos concentremos no que realmente importa aqui. 

Assim, chegamos ao final em choque. Circunstâncias que não somos capazes de entender parecem inesperadas, mas o sentimento de algo fora do comum estava comigo durante todo o filme. Ao tentar dar sentido ao que acabara de acontecer, eu percebi que essa conclusão não era o protagonista aqui, mas sim a forma como contada a história. Dois homens quase opostos querem algo da mesma garota, além do que ela mesma deseja. Esse poderia ser um bom resumo para essa história. Mas Um Alguém Apaixonado transcende tanto o seu argumento inciai, que ele poderia até não existir. A maneira de narrar é o que de fato constrói a história e os personagens, no mundo japonês diegético contado por um diretor iraniano que é professor universitário em Paris e que vê o mundo de uma forma belamente peculiar. 

http://onemovieadaywithamelie.blogspot.com/2015/05/day-fifty-five-like-someone-in-love-may.html


Um Alguém Apaiconado (Like Someone in Love)  Dirigido e escrito por 
Abbas Kiarostami. Com:Rin Takanashi, Tadashi Okuno, Ryô Kase. 
França/Japão,  2012, 109 min. Dolby Digital, Color (Net).

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